quinta-feira, março 01, 2007

29 - Carminho & Sandra - Versão 2

[Vejam o post anterior, o texto é o original... Eu apenas quando o li não resisti e escrevi-o à minha maneira. Dois textos; duas histórias; dois destinos]


Carminho acorda e, ainda deitada, ouve o som da chuva que tanto lhe agrada. Sorri, pois sabe que, naquele instante, haverá outra pessoa qualquer a sorrir, também.
Enrosca-se nos lençóis, de pura seda, e entra num sonho profundo, quase real de tão bonito que era. Volta acordar e à sua vota tem a avó que lhe acaricia a mão, o namorado que lhe beija a testa e a mãe que trás o pequeno almoço: fruta, tanta e tanta fruta; uma bola de gelado de baunilha e uma cereja no topo; fruta e mais fruta; croissants; doce de morango e marmelada e um copo de leite com mel, bem quentinho.
Carminho tem 18 anos e uma vida dentro de si. Olha para a barriga e acaricia-a. Sente-se feliz. Muito e muito feliz.
9 meses recheados de amor, afecto, atenção, gargalhadas, fotografias cheias de sorrisos de gente feliz.
Chegou o dia. Calmamente dirige-se para a maternidade, acompanhada por toda a família e por todos os amigos. As lágrimas caem-lhe com as dores das contracções e com o peso da barriga que, inevitavelmente, se faz sentir.
A malinha com as coisas para a mamã e para o bebé já estava preparada há muito.
Entra na maternidade, grita de dor e de prazer. Finalmente, ouve o choro do seu filho, sorri e, de tanto cansaço, acaba por adormecer.
Cá fora, recebe-se a notícia de que o menino Afonso acaba de nascer. É um menino lindo e saudável.
A felicidade é notória e toda a gente se mostra impaciente para felicitar a mamã, para a mimar ainda mais e para rechear o bebé de coisinhas boas.
Carminho acorda.
Basta abrir os olhos e olhar à sua volta para ver que nunca está só. Recebe flores, ursos grandes e ternurentos, bombons e tudo aquilo a que ela julga ter direito.
Carminho levanta-se ligeiramente, pega no seu filho, abraça-o com cuidado, e à volta tem aqueles que a amam.
É o quadro perfeito.


Sandra acorda e, ainda deitada, ouve o som da chuva que tanto lhe agrada. Sorri, pois sabe que, naquele instante, haverá outra pessoa qualquer a sorrir, também.
Apetecia-lhe ficar mais um bocadinho, enroscadinha naqueles mantas, feitas por si, mas o tempo é pouco e a vida não lhe permite tamanhas regalias. Olha para a barriga e acaricia-a. Levanta-se. Come a última maçã. Veste-se e sai de casa. Está frio, muito frio. O dia, cinzento, é triste e chora compulsivamente. Olha para a carteira e vê que se esqueceu das moedas que lhe permitem apanhar o comboio com destino a Lisboa, Oriente. Olha para o relógio e vê que já tem pouco tempo, apressa-se e volta a casa para ir buscar o seu dinheiro.
Quase sem fôlego vê o comboio passar mesmo à sua frente. Agora, tem de esperar pelo próximo.
O frio quase que corta a sua face branca, tão branca, que parece neve de tão gelada que está.
Sentada, recupera agora o fôlego de uma manhã, como todas as outras manhã, cheia de pressas e correrias.
De repente, lá ouve o som desejado "vai dar entrada na linha dois o comboio com destino a Lisboa, Santa Apolónia". É este!, diz aliviada.
Chega ao Oriente e ainda tem de apanhar o autocarro até ao Saldanha.
Finalmente chega ao trabalho. Terminam as primeiras oito horas. São 16h e para Sandra o dia está longe de terminar. Dirige-se para o Marquês de Pombal para trabalhar mais oito horas.
Meia-noite. Agasalha-se e corre para a paragem. Sorri por ainda conseguir apanhar o autocarro, depois volta a sorrir por ele ter chegado ao destino a horas e, assim, conseguir apanhar o Comboio até ao Entroncamento.
É de madrugada.
Descalça-se e estende-se na cama. Está estafada. Olha para o telemóvel e nem uma chamada, nem uma mensagem. Naquele T1 ainda por mobilar, Sandra encontra-se sozinha. Sem ninguém. Correcção: Sandra, apesar de tudo, não está só. Sandra tem-na a ela e ao seu filho.
9 meses de força, de coragem, de luta. 9 meses a sorrir por ver a barriga a crescer e a ouvir o seu bebé.
A sua casa, apesar de modesta, já reúne todas as condições para receber o seu filhote. Sandra não se farta de sorrir por ver aquele quartinho que, apesar de também ser seu, tem o cheiro a bebé.
Está na hora. Telefona para o 112. Espera. Espera. Espera.
A ambulância chega e leva-a para a maternidade.
Sente as dores normais do parto, nada que a faça temer. Finalmente, ouve o choro do seu filho, sorri e continua a sorrir e, apesar do cansaço, não se deixa adormecer. Quer estar junto ao seu filho, junto ao seu maior Amor. Quer sentir-lhe o cheiro, o calor, a força e a garra de uma nova vida.

Ninguém a vem ver. Inevitavelmente, pelo rosto de Sandra escorre uma lágrima longa que parece não ter fim. Sente-se desprotegida de amor daqueles que a viram crescer e que, supostamente, a amariam incondicionalmente.
Rapidamente seca a lágrima e, cheia de força, levanta-se e diz que quer ir para casa, que está bem e que não consegue estar ali inerte a ver o tempo a passar.

Chega a casa.
Deita o pequenino André no berço e, ao vê-lo a dormir, tem a certeza que um filho é sempre amado, seja qual for a altura da vida.


Carminho rapidamente regressa à faculdade.
Afonso fica com os avôs ou com a ama.
4 anos depois, Carminho é licenciada no curso que sempre sonhou. Trabalha. Casa.
Carminho, vive feliz.


Sandra é Mãe – mãe solteira - e trabalha afincadamente para que o seu filho tenha tudo aquilo a que tem direito. Porque ela ama-o e sabe que com dedicação, trabalho e força de vontade tudo se consegue.
Dois anos depois regressa à faculdade.
É Mãe. Trabalha. Trabalha. Trabalha e estuda.
Rapidamente tira o curso que sempre sonhou.
Agora, a trabalhar naquilo que gosta e com um filho a correr-lhe para os braços – apesar de nunca ter duvidado – tem agora a certeza que a sua escolha nunca, mas nunca poderia ter sido outra.
Sandra, vive feliz.



Eu voto não . Pela Sandra e pela Carminho. Por todas as mães.
Por mim.
Madalena - as cores da vida


Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

11 comentários:

  1. Será uma contradição muito grande dizer que gostei do teu conto, apesar de ter votado sim sem ter hesitado? Pois então que seja...

    Tenho esperança que haja muitas Carminhos e Sandras como as que descreves. Mas também espero que haja a liberdade para apoiar todas as outras que a vida não lhes permitiu ter uma existência menos dolorosa...

    Beijo.

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  2. Comecei a ler o teu conto e não parei enquanto não o acabei.
    Muito bem descrita e escrita a vida de duas mulheres. Ambas fizeram a sua escolha.

    Eu também fiz a minha votando sim.
    Sim à despenalização!

    Beijinho

    P.S. Agradeço a tua visita lá no andando...

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  3. Olá prima,d ecidi fazer-te uma visitinha ^^
    Adorei a tua versão, apesar de eu ser a favor do aborto.

    Uma coisa que escreveste no teu textinho que se a minha 'stora' de filosofia lêsse começava logo a reclamar:

    "Sandra é Mãe – mãe solteira - e trabalha afincadamente para que o seu filho tenha tudo aquilo a que tem direito. Porque ela ama-o e sabe que com dedicação, trabalho e força de vontade tudo se consegue."

    A parte do trabalhar afincadamente para que o filho tenha tudo a que tem direito, é a mãe estar a colocar á frente do filho os bens materiais.

    Enfim, as coisas que me ficam na cabeça depois de aulas de filosofia.

    Adoro-te ♥

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  4. Wake-up-to-reality4/3/07 10:41

    Voilà o exemplo perfeito da ignorância materializada num texto sentimentalista, barato e parolo, decorado de lugares comuns. Felizmente que a maioria dos portugueses sabe que nem sempre é assim, que nem sempre um filho é desejado. Querida, parece-me que conheces muito mal o Mundo. Sai do teu cocoon idealista, onde há sempre dinheiro para pagar uma ama, onde há sempre avós dispostas a tratar dos netos enquanto se acaba uma "licenciatura com que sempre se sonhou". Haja paciência!

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  5. Nuno e anag,
    vimos as coisas de outra forma, só isso. Somos Humanos e, como tal, não somos iguais. E confesso que me custa saber que existem abortos devido há falta de maturidade - irresponsabilidade. Eu sei que cada caso é um caso. Mas sejamos justos, a maioria não pensa nas consequencias e depois quem sofre é o bebé. E isso irrita-me profundamente...
    Enfim, já falei imenso sobre este assunto e o que está decidido está decidido, por isso fiquemos por aqui que este é daqueles assustos que, seja qual for a opinião, há sempre muito que falar, muito que sentir...
    Um beijinho, aos dois :)*

    Joanita, minha querida,
    na história se há uma menina que tem tudo há outra que não tem nada... o dinheiro não cai do céu e a pessoa só vive se se alimentar... E se uns precisam de trabalhar menos, outros precisam de trabalhar mais, muito mais... No entanto, podem amar os filhos da mesma forma ou ainda mais... ;)
    Percebo o que quiseste dizer, mas acho que neste caso não faz muita lógica... ;))
    Beijinhos e fiquei contente por teres vindo aqui... ;P
    ADORO-TE!*

    Caro Wake-up-to-reality,
    parece-me que não leu o texto como deve ser. Porque se eu referi 'a menina que tem tudo' também referi a que nada tem. Logo, se há quem tem a sorte de ter pais que ficarão com os netos, tb há quem não tem essa sorte. Eu sei disso. O que não implica que, por isso, se vá fazer um aborto. Ah e tal, estou sozinha no mundo sem qualquer espécie de ajuda, o que vou fazer? Olha, vou abortar. Por favor, tem dó. Sei perfeitamente (!!!) do quão pode ser duro viver neste Mundo, mas também sei que a solução não é, de todo, matar um filho.
    Agradeço a visita. ;)

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  6. Passo pelo teu canto para degustar as (tuas) palavras.
    Gostei.
    bj
    Gui
    coisasdagaveta.blogs.sapo.pt

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  7. Duas vidas, dois destinos. Que acabaram dando fruto por opção. Mas a vida é feita de opções e cada um deve ter consciência do que é melhor para si. Porque vai ter de viver consigo própria.

    E SIM, obviamente, à despenalização, porque quanto ao aborto ele deverá ser, em todos os casos, a derradeira solução, não uma forma de evitar uma gravidez indesejada.


    BeijInha grande.

    Desta Tia.

    Inha

    ;)

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Apesar de ter Votado Sim.
    Gostei muito do teu Conto...
    Deixa a pensar...

    :)

    Beijinho*

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  10. pois uma pessoa vai gostando vai gostando até chegar à parte final, menstruações há muitas é só isso que um aborto mata, filhos podes ter todos os meses, tem fá.

    www.motoratasdemarte.blogspot.com

    www.videodroma.blogspot.com

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