Sábado, Novembro 14, 2009

42 – (sem) amor

O teu cheiro não me sai da pele e o fumo dos teus cigarros teimam em permanecer no meu cabelo. Adias a tua partida. Todos os dias voltamos a fazer amor como se fosse a última vez. Todos os dias inundo esse teu olhar de beijos embrulhados em lágrimas ocultas. Desejo-te, mas sei que partirás.
Tremo de cada vez que as tuas mãos tocam nas minhas, de cada vez que nos envolvemos nos braços dum do outro. Tremo de cada vez que a ânsia de te ter me percorre o corpo e me diz, baixinho, "vais ficar sozinha, de novo... uma vez mais".

Esmoreço.
Deixo-me cair, no meio da sala, naquele tapete que a avó me deu, naquele tapete que, por tantas vezes absorveu o meu choro e as gotas de whisky ou do vinho tinto que acabam por escorrer da garrafa… ou até dos meus lábios, quando perdem a vontade de sentir, de viver.

Tu não sabes, mas vais embora.
É sempre assim. O amor, por aqui, nunca dura muito tempo – acaba sempre por partir. Tu não serás a excepção e esta voz que teima em me avisar, em me relembrar, dá-me razão e tira-me o sossego.

Desespero.

Depois dirás que a culpa foi minha, porque fui eu que insisti em ver o que não era possível de visualizar, porque não existia; que ouvia o que não tinha som; que teimava em acreditar numa história que não era real. E, assim, em vez de viver aquele amor, fazia questão de o sentir já morto, mesmo quando tinha acabado de nascer.

Eu direi que és louco, como digo sempre, a todos. Deixarás escorrer uma lágrima e dir-me-ás que fui uma desilusão e pela tua boca sairão palavras como amo-te, és diferente, única, especial, tenho pena, fim.

Responderei com gritos de desespero, com palavras maliciosas e com gestos suicidas. E a voz continua em mim, dizendo "vês?! Eu avisei-te. Disse-te que ele iria embora. Vais ficar sozinha, de novo... uma vez mais". E como por instinto faço com que essa voz se oiça, dizendo bem alto, já com o copo de whisky na mão,
             vês como vais embora?... Porque não acreditaste em mim e não partiste mesmo antes de teres chegado até mim?

Fechas a porta.

Deixo-me cair no meio da sala, naquele tapete que a avó me deu...
A história repete-se.

                É o fim.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

41 - Estrela

Adormeço enquanto a Estrela, ao longe, continua a sua caminhada.

Na mão leva o cesto que a alimentará por alguns dias, não muitos. Por cima do seu cabelo loiro, a fita castanha que a mãe lhe dera. E no olhar suporta a esperança de abarcar uma nova vida, onde os sonhos se transfigurem e passem a ser a sua mais bela realidade.

Esta menina tem corpo de bailarina, voz de fadista e alma de poeta.

Os pés doridos fazem crer que a sua [primeira] caminhada estará a chegar ao fim. Os sapatinhos, feitos pela avó, vão-se despedaçando, mas não a abandonam. O silêncio daqueles dias absorvem-lhe por completo, mas o sorriso estampado no rosto faz emergir toda a confiança que tem, ou que aprendeu a ter.

Esta Estrela há-de brilhar. Vai voltar a nascer e, desta vez, vai vencer. Não haverá Lobos capazes de a consumirem, nem Ovelhas capazes de a enganar. Desta vez, a menina de olhar doce, não se deixará iludir. Cantará de cada vez que a voz da Desistência teimar em se ouvir. Cantará para preencher o vazio daqueles que ela tanto ama, aqueles que deixara aquando o início desta sua viagem.

Transporta a sede de uma ânsia descomunal, que não se prende com preconceitos. Uma sede sem limites, insaciável.

Esta Estrela há-de brilhar. Pisará todos os palcos existentes e permanecerá naquele que a faz tão feliz, aquele que a completa, preenche e que lhe devolve a paz de que necessita. Esta menina, de sorriso no rosto, de olhar simples, de palavra sincera, que magoa quem assim não o é, será figura de cartaz e fará jus ao seu nome: Estrela.

Será naquele pequeno lago que verá o seu reflexo, a sua imagem que pretende manter, o olhar que não quer perder, pois quer ser estrela, sem deixar de ser a Estrela.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

40 - a tua voz

Julgar-te-ia longe, se não tivesses tão perto; mergulharia em ti, se a minha sede não tivesse saciado; conjugaria o verbo existir no futuro, se a nossa história ainda não tivesse terminado.

Sinto o frio de cada noite solitária, o frio que me aquece, que me conforta, que me adormece; sinto a lágrima que não escorre, mas que me percorre com um força que não se esgota e que me cansa; um olhar incolor, que não cativa, que não arde com o murmurar que é cúmplice, mas efémero. Penso em ti, às vezes. Sorrio e sei que vou ficar aqui, até a tua voz chamar por mim.

Quarta-feira, Março 04, 2009

39 - Pulsões

Sois sonho, sois miragem
Água doce, puro mel
E de entre sopros de vento
Perfuras o centro do meu contentamento

Folhas, ervas, jasmim
É o cheiro de uma pele junto a mim
Que ofusca um prazer desmesurado,
Um prazer sem limite, sem fim.

Música detentora de um poder singular,
Onde os dias parecem horas,
E a chuva a bênção de um amor
Fugaz, denso e inspirador,

Onde olhares cruzados são
Raios, trovões, paixões!

Terça-feira, Agosto 26, 2008

38 - Expulsa

A escolha foi tua, meu amor. Escolheste magoar-me vezes sem conta e, um dia, fartei-me de dizer que te amava, de fazer o melhor que sabia para te agradar. Fartei-me de ser compensada com gritos, berros, palavras ofensivas e injustas… Palavras que tanto feriram os meus ouvidos. Fartei-me de amar quem não se apercebe desse amor ou, ainda pior, se se apercebe, o quer matar.
Será pecado odiar tanto quem, um dia, nos gerou? Odiar profundamente aquela mulher que, um dia, chegámos a dizer “és a melhor mãe do mundo”? Não, não pode ser. Pecado é falsificar sentimentos, esconder emoções e viver dizendo o que não se sente. Pecado é dizer-se “eu mato-te”, pecado é magoar-se desta forma alguém… e se substituirmos alguém por filha, o pecado será, certamente, bem maior.
A escolha foi tua. Não posso continuar a viver no meio desta esquizofrenia, porque estou farta de, sem perceber porquê, mudares de personalidade de dois em dois segundos. Faz-me mal viver assim; faz-me mal expulsar-te da minha vida, mas se continuar a viver assim vou morrer, todos os dias, um pouco mais.
A escolha foi tua. E talvez até tenhas sido tu que, com essa forma de viver, me tenhas expulso da tua vida. Eu não sei. Roubaste-me todas as certezas que fui construindo ao longo da vida…mas uma nova se criou: vou vencer nesta vida e vou vencer sem ti.

A escolha foi tua, mãe.

Terça-feira, Julho 22, 2008

37 - Réplicas

Poderia fazer réplicas do sorriso e usá-las em momentos de melancolia ou, até mesmo, de dor profunda. Réplicas, simplesmente réplicas que, ao olhos dos comuns mortais, passariam por obras originais. Mas de que me servem falsas cópias? Para quê construir uma imagem que não reflecte a bravura das ondas que destroem o verdadeiro mundo?, o mundo a que nem todos têm acesso: o coração.

De que serve a brisa de uma noite límpida se tu não estás? Onde vou buscar o beijo que me fazia adormecer todas as noites se o meu doce beijador decidiu ser livre? Preciso de ti e tu, meu amor, precisas de mim. Eu sei.

Ah, estes seres que se dizem racionais acreditam que o Tesouro encontra-se soterrado, algures numa ilha esquecida. Que tamanha tolice. Quando é que aprenderão que as pérolas não são visíveis e que se encontram disfarçadas em sentimentos, em lágrimas cristalinas e em sorrisos de princesa?

Dava a minha vida para que tu, meu eterno menino, pudesses viver para poder ser feliz. Fazia-o mesmo tendo em conta todas as noites em que, dadas as tuas tempestades, me fazes lembrar como tudo poderia ser diferente se não existisses, como os problemas poderiam ser diminutos … Dava tudo para que os teus olhos nunca deixassem de brilhar…
Para aqueles que não entendem é obsessão, para os especiais é Amor.

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

36 - Eu, às vezes, ainda acredito

Às vezes ainda acredito em mim; ainda acredito que posso mudar, que posso vencer. Acredito na minha voz, nas minhas palavras que me soam tão sinceras. Mas a verdade é que eu não posso mudar, não posso deixar de ser o que sou, com tudo o que isso implica: com tudo o que tem de mau e de bom. Perco-me em histórias que só se contam uma vez, que nunca mais se repetem. Entristeço-me de cada vez que me pinto de uma cor que não a minha, que faço transparecer sonhos que não são os meus. Falsas ideologias, falsos rostos, falsas almas. Falsa vida. Pertencer a um mundo que não o nosso, só por que com isso se obtém menos críticas, menos protestos, menos olhares que nos condenam, mais ‘amigos’, mais poder, mais angústia … acaba-se por cair num conformismo irritante, que me destrói, que nos destrói. Como se, no fundo, a base da vida fosse simplesmente viver para agradar a quem nos rodeia, mesmo que isso tenha que significar esquecermo-nos de quem somos e vestirmos a pele de um outro ser que, provavelmente, até nem gostamos, mas, como se tivesse mesmo que ser, acabamos rendidos a uma mente, a uma personalidade que não a nossa, mas a única que é conhecida pelos outros, que é socialmente aceite.

O medo existe. Existe o medo de falhar, de se mostrar que falha, que se erra, que se é Humano… existe um medo incontrolável de se dizer “Não”, de achar que o outro é-nos sempre superior e, por isso, querer ser como ele, pensar como ele, errar como ele: viver a vida dele. Sendo que o cúmulo é que esse ele certamente que está a viver a vida de um outro que, por sua vez, também vive a vida de um alguém Um ciclo que não tende acabar se não houver quem diga Não de cada vez que não concordar com algo; que diga Basta de cada vez que se deparar com uma injustiça; que Não tape os olhos de cada vez que o Mundo se estiver a desmoronar à sua frente…

Às vezes ainda acredito em mim. Às vezes ainda acredito que esta História que é a Vida pode acabar com o final feliz.

Eu, às vezes, ainda acredito.

Domingo, Junho 17, 2007

Parabéns...

... não à Madalena, mas à Sara! Ou seja, parabéns a mim. 20. ai...

Sábado, Junho 09, 2007

35 – Eu não queria

Há mundos que se transformam com uma rapidez que assusta. Entre o querer e o não querer a barreira é curta, quase inexistente. É preciso cuidado. É preciso cuidado para não tropeçar e cair do lado errado do mundo. Eu tropecei. Caí e ainda não me levantei, ainda não consegui começar a caminhar na direcção do mundo onde, outrora, me encontrara.
Sem limites. Experimenta-se o primeiro cigarro, o primeiro charro, as primeiras bebedeiras, as primeiras loucuras. Sentimo-nos únicos, felizes e com uma capacidade incalculável de continuar a experimentar mais e mais. As primeiras dietas. Os primeiros dias sem comer. As primeiras compulsões. Os primeiros vómitos provocados. Os primeiros laxantes.
Eu queria ter experimentado tudo, mas eu não queria ter continuado, eu juro.
Olho à volta. Começo a sentir que este já não é, de todo, o meu mundo. Isolo-me. E, quanto mais o tempo passa, mas distante estou de tudo aquilo que me fazia bem, que me fazia sorrir e rir como uma louca.
Agora, só a dor me faz bem; só esta sensação de perda me alimenta o gosto de querer continuar à procura de uma perfeição que não existe.
E se no início é difícil esconder este novo comportamento, estes novos ideais, depois torna-se fácil. A revolta, aparentemente, desaparece. Consigo sorrir mesmo quando por debaixo das camisolas se encontram as cicatrizes que um dos meus novos amigos, o x-acto, me fez na noite passada. Depois disto, já nada importa. A mentira é constante. Mente-se a primeira vez, mente-se até ao fim.
Desisto de tudo. Dos falsos amigos, do namorado, do amor, da vida. O medo e a solidão, a dor e o prazer, passaram acompanhar-me. Não existe quem me ame. Sinto isso, de cada vez que tento pedir ajuda e ninguém reconhece, pelo meu rosto, pelas minhas palavras, esse mesmo pedido. Manda-se uma mensagem a uma amiga: “Estás em Lisboa?”, ela responde “não”. Tudo bem, na verdade, também não sei se conseguiria contar-lhe alguma coisa; no momento, faltar-me-iam as palavras e eu sentir-me-ia ainda mais inútil. Foi melhor assim.
Apesar de tudo, sei que não sou a única que vive neste mundo e isso, apesar de parecer cruel, faz-me sentir que não estou verdadeiramente só.

Eu não queria.

Sexta-feira, Maio 11, 2007

34 - nada

quanto mais penso, mais vontade me dá de desistir, de parar, de deixar de amar, de deixar de confiar, de deixar de acreditar... de morrer.
nada resta senão este corpo pesado, abarrotar de dor. nem um sonho realizado. nem um sorriso sem ser forçado. nada de nada. eu e só eu. ou seja, nada.
perdi-me em ti. acreditei e agora morri. perdi-me em mim. acreditei e agora morri.
arte de representar, um sonho. psicologia, um sonho. escrita, um sonho. amar, um sonho. ser feliz, um sonho. a minha vida? um sonho. nada real, nada, nada, nada...

eu. simplesmente eu.
ao final da tarde, semi-deitada, a olhar-me, escrevo a história do dia seguinte. porque conheço a minha vida, sei-a de cor. escrevo-a, já que não a vivo.


permaneço viva nos meus sonhos, mas morta na minha vida.

Sábado, Abril 07, 2007

33 - Até sempre, Maria

Faz, hoje, dez anos que a Maria morreu. É impossível esquecer. O que mais a marcava era o seu sorriso, tão puro, doce, tão alegre. A Maria tinha uma energia inesgotável, tinha apenas dois anos a mais que eu e era a minha melhor amiga.
Quando dormíamos na casa duma da outra, passávamos as noites a fazer planos. A nossa vida estava mais que organizada. Seríamos grandes pediatras, casaríamos com dois irmãos ingleses e moraríamos, todos juntos, numa fabulosa quinta. Teríamos quatro filhos e seríamos muito felizes. Nessas noites prometíamos ser as melhores amigas do mundo. E essa, essa foi a única promessa cumprida.
Eu sempre a invejei. Ela era bonita, das melhores alunas da escola e tinha todos os rapazes atrás dela. Os pais da Maria tinham ido para a Suiça pouco antes dela atingir a maioridade. Até nisso ela tinha sorte. A Maria era considerada perfeita. E, embora fosse a minha melhor amiga, detestava quando os meus pais me comparavam com ela.
Depressa a Maria se tornou maior de idade e como prenda tivera uma casa em Leiria.
Dois dias depois a tia Betty tinha falecido. Os meus pais foram a Itália, ao funeral, e depois acabaram por passar lá uns tempos, assim foi porque a Maria convidou-me para ir morar com ela. Eu adorei. Pela primeira vez achara os meus pais os melhores do mundo. Mas graças à Maria, claro.

Passou-se um ano. Eu estava completamente dependente da Maria e, no fundo, ela de mim. O sorriso da Maria era contagiante. Em tantos anos de convivência com a Maria nunca a tinha visto chorar, mas, nestes últimos meses, ela andava mal, algo a preocupava, e eu sabia. Mas, nunca falámos muito sobre isso. As poucas vezes que tocávamos no assunto ela desviava sempre o olhar e começara a falar noutra coisa e eu não insistia, nunca percebi o porquê, mas eu também andava muito cansada e triste porque o Guilherme não me ligava nenhuma.

Lembro-me tão bem. Foi numa quinta-feira de manhã. A Maria acordou primeiro que eu e disse-me: "preciso falar contigo. Por favor, ouve-me..." disse isso com um tom melancólico, deprimido e completamente desesperado. E eu dormia, ou fingia que dormia para não ter que acordar às 8h da manhã, num domingo de chuva.
Ela veio ter comigo e deu-me um beijo na testa. Olhou-me e deixou cair uma lágrima que me tocou no rosto.
Saiu, deixando a porta entreaberta.
Acordei eram 11h13 minutos. Senti a ausência da Maria. Espreguicei-me. Permaneci deitada ainda uns bons quinze minutos. Chamei pela Maria, mas nada. Levantei-me.
Percorri a casa, a pequena e airosa casa e a Maria não estava. Voltei ao quarto: uma carta. De repente ocorreu-me mil e uma imagens, das mais desagradáveis que pudessem haver. Tive medo, tive muito medo de a abrir. Lentamente desdobrei a carta, que dizia assim:
« Um dia, quando acordamos e nos apercebemos que há muito que não sonhamos, então aí, já não faz mais sentido viver.
Querida Marta,
Nunca fui feliz como sempre quis demonstrar que o era; sempre sorri para não ter que chorar. Mas hoje, ao querer falar contigo e tu continuares nesse sono profundo, senti-me tão só que nem imaginas. Chorei muito, muito mesmo, mas tu dormias, não ouviste.
Bolas, estou farta de sofrer escondida, sozinha, de sofrer neste cubículo só meu, de sofrer e de ninguém entender. FARTA!
Chama-me doida, doente, o que quiseres mas eu estou mesmo farta disto tudo. Com ou sem motivos, assim termino este meu sofrimento.
Um beijo e um até sempre,
Desta tua sempre – fracassada – amiga.
Desculpa-me...
»

A carta estava cheia de erros e a letra estava quase ilegível.
A Maria tinha-se suicidado. Naquele momento parecera que eu morrera também.
Incrivelmente não chorei. Apenas, uma incontrolável dor ia-me destruindo por dentro. E a culpa era minha.
Os pais da Maria , que sempre demonstraram pouco afecto e dedicação por ela – que eu na altura sempre julgara isso como sendo das melhores coisas que pudessem acontecer – puseram-me um "processo em cima": dizendo que eu era a culpada do sucedido. Claro que o tribunal não me atribuiu qualquer tipo de pena. Mas, se eu perante a lei nada de mal tinha feito perante os meus sentimentos eu era a pior das criminosas.
Eu tinha 17 anos, e por só pensar em dormir tinha perdido para sempre a Maria.

Hoje, passados dez anos – a Maria teria 29 anos – tenho uma filha linda, uma filha que se chama, também, Maria. A minha filha é tão ou mais bonita que a minha eterna amiga e têm as duas o mesmo sorriso. Podem ser muito parecidas mas vão ter destinos muito diferentes.

Para ti, minha amiga Maria,
gosto e vou gostar sempre muito de ti
e hoje sou eu que digo: desculpa-me...

Escrito a 15 de Fevereiro, Terça-feira, de 2005

Domingo, Março 25, 2007

32 - Grávida!

- Rita, ouve-me!...
- Por favor, Sofia, mudemos de assunto. Tu conheces-me e sabes muito bem como é que eu funciono. Preocupo-me com as pequenas coisas, mas com as de maiores dimensões tento só pensar no momento adequado, no momento que considero certo - tento não sofrer por antecipação, opto pelo optimismo. Percebes?
- Percebo que tens medo, Sofia.
- Talvez... mas trata-se do meu futuro, e isso assusta-me.
- Continuo achar que isso tudo ou é medo ou é cobardia.

E nesta conversa de messenger, o silêncio instala-se.

Minutos depois:

- Eu estou contigo, Rita.
- Não... Eu precisava de alguém que me dissesse aquilo que eu queria ouvir e não tudo o que tu tens dito até agora...
- Mas, Rita, é só para teu bem!
- Não te preocupes, Sofia. Eu safo-me sozinha.
Sem ti. Sem ninguém. Eu safo-me.

Rita fica offline.


[Dois dias depois]

- Finalmente, Rita!! Estou farta de te ligar e tu nada...
- Desculpa, Sofia.
Olha, estou grávida. Tinhas razão...
Na nossa última conversa eu já sabia, mas não tive coragem para te contar...
Não, o filho não é do Vasco, mas sim do Filipe.
Eu sei que namoro com o Vasco, mas o Filipe reapareceu na minha vida e disse que me amava e que faria de tudo para ficar comigo... o tempo passou e eu, quando dei por mim, estava deitada, na cama com ele.
Foi uma estupidez, mas aconteceu. Até porque... o Filipe voltou a desaparecer. Ou seja, estou só, novamente. Acreditei nele e deixei-me levar... Agora lixo-me.

Estou de rastos, Sofia.
Um beijo e até mais... Agora vou-me embora. Só te queria contar isto, mas não tenho coragem para ler o que tu tens para me dizer. Acho que já me sinto suficientemente estúpida para ouvir-te dizer o mesmo.
Beijo, obrigada, gosto de ti.

Terça-feira, Março 20, 2007

31 - Folha solta de um diário perdido

Não!, eu não quero comer.

Sinto que ninguém me entende e isso mata-me por dentro.
Da mesma forma que tenciono alcançar a perfeição, tenho um desejo enorme em desistir de tudo. Na verdade, só quero ser livre. Livre de dores e preocupações. Quero, por instantes, ser uma adolescente [já mulher] irresponsável que apenas quer viver e ser feliz.

Seria fácil escrever nesta folha ainda por preencher o quão choro compulsivamente, o quão me odeio. Mas não! Não é isso que vou fazer. Vou adoptar a postura contrária. De nada serve aceitar uma atitude depressiva que, mais tarde ou mais cedo, me fará 'bater no fundo'. Assim, é-me fácil sorrir, é-me fácil dizer 'sim, estou bem'. Sim, é fácil mentir.

Quanto mais o tempo passa, mais acredito em mim. Exclusivamente em mim. Sei que estou nisto sozinha e é sozinha que alcançarei o mesmo objecto. Mas... Será que os fins justificam sempre os meios? Bem, mentiria se dissesse que sim. Mas, a verdade (se ainda souber o significado de tal palavra), é que não sei e pouco me interessa.

Resiste-se à dor, ao sofrimento; resiste-se ao Mundo. A comida, essa, é difícil de resistir, mas quando se consegue, uma, duas, três e quatro vezes, tudo parece possível. Tudo é possível!
Não deixo que ela me controle e, com todas as minhas forças, não me deixo render face aos seus encantos. Sei que serei capaz: capaz de continuar a esconder esta minha situação; capaz de continuar a caminhar pelas ruas certas, pelo caminho que eu escolhi ser o certo. Sem me questionar, limito-me a agir.

Sem 'ana' nem 'mia', limito-me a viver à minha maneira.
A folha que inicialmente era branca, agora escrita com palavras e sentimentos sem nexo, continua sem vida, vazia, oca de um mundo que talvez não existe, mas que eu quero procurá-lo.

E é assim que continuarei: a procurar... procurar... procurar...

Terça-feira, Março 13, 2007

30 - Sem som

Canto baixinho só para eu ouvir. Porque hoje dói-me a voz, dói-me o desejo de ser quem não sou.
Um dia, quando se puder escrever fim, no livro da minha vida, há páginas que se rasgarão de tanta dor que carregam, de tantas lágrimas que já suportaram. Uma por uma, as folhas irão cair e deixarem-se morrer. E, seja onde for, haverá sempre a memória de um ser que queria morrer e voltar a nascer num outro corpo, para ter uma outra vida e, assim, escrever-se uma nova história.

Quinta-feira, Março 01, 2007

29 - Carminho & Sandra - Versão 2

[Vejam o post anterior, o texto é o original... Eu apenas quando o li não resisti e escrevi-o à minha maneira. Dois textos; duas histórias; dois destinos]


Carminho acorda e, ainda deitada, ouve o som da chuva que tanto lhe agrada. Sorri, pois sabe que, naquele instante, haverá outra pessoa qualquer a sorrir, também.
Enrosca-se nos lençóis, de pura seda, e entra num sonho profundo, quase real de tão bonito que era. Volta acordar e à sua vota tem a avó que lhe acaricia a mão, o namorado que lhe beija a testa e a mãe que trás o pequeno almoço: fruta, tanta e tanta fruta; uma bola de gelado de baunilha e uma cereja no topo; fruta e mais fruta; croissants; doce de morango e marmelada e um copo de leite com mel, bem quentinho.
Carminho tem 18 anos e uma vida dentro de si. Olha para a barriga e acaricia-a. Sente-se feliz. Muito e muito feliz.
9 meses recheados de amor, afecto, atenção, gargalhadas, fotografias cheias de sorrisos de gente feliz.
Chegou o dia. Calmamente dirige-se para a maternidade, acompanhada por toda a família e por todos os amigos. As lágrimas caem-lhe com as dores das contracções e com o peso da barriga que, inevitavelmente, se faz sentir.
A malinha com as coisas para a mamã e para o bebé já estava preparada há muito.
Entra na maternidade, grita de dor e de prazer. Finalmente, ouve o choro do seu filho, sorri e, de tanto cansaço, acaba por adormecer.
Cá fora, recebe-se a notícia de que o menino Afonso acaba de nascer. É um menino lindo e saudável.
A felicidade é notória e toda a gente se mostra impaciente para felicitar a mamã, para a mimar ainda mais e para rechear o bebé de coisinhas boas.
Carminho acorda.
Basta abrir os olhos e olhar à sua volta para ver que nunca está só. Recebe flores, ursos grandes e ternurentos, bombons e tudo aquilo a que ela julga ter direito.
Carminho levanta-se ligeiramente, pega no seu filho, abraça-o com cuidado, e à volta tem aqueles que a amam.
É o quadro perfeito.


Sandra acorda e, ainda deitada, ouve o som da chuva que tanto lhe agrada. Sorri, pois sabe que, naquele instante, haverá outra pessoa qualquer a sorrir, também.
Apetecia-lhe ficar mais um bocadinho, enroscadinha naqueles mantas, feitas por si, mas o tempo é pouco e a vida não lhe permite tamanhas regalias. Olha para a barriga e acaricia-a. Levanta-se. Come a última maçã. Veste-se e sai de casa. Está frio, muito frio. O dia, cinzento, é triste e chora compulsivamente. Olha para a carteira e vê que se esqueceu das moedas que lhe permitem apanhar o comboio com destino a Lisboa, Oriente. Olha para o relógio e vê que já tem pouco tempo, apressa-se e volta a casa para ir buscar o seu dinheiro.
Quase sem fôlego vê o comboio passar mesmo à sua frente. Agora, tem de esperar pelo próximo.
O frio quase que corta a sua face branca, tão branca, que parece neve de tão gelada que está.
Sentada, recupera agora o fôlego de uma manhã, como todas as outras manhã, cheia de pressas e correrias.
De repente, lá ouve o som desejado "vai dar entrada na linha dois o comboio com destino a Lisboa, Santa Apolónia". É este!, diz aliviada.
Chega ao Oriente e ainda tem de apanhar o autocarro até ao Saldanha.
Finalmente chega ao trabalho. Terminam as primeiras oito horas. São 16h e para Sandra o dia está longe de terminar. Dirige-se para o Marquês de Pombal para trabalhar mais oito horas.
Meia-noite. Agasalha-se e corre para a paragem. Sorri por ainda conseguir apanhar o autocarro, depois volta a sorrir por ele ter chegado ao destino a horas e, assim, conseguir apanhar o Comboio até ao Entroncamento.
É de madrugada.
Descalça-se e estende-se na cama. Está estafada. Olha para o telemóvel e nem uma chamada, nem uma mensagem. Naquele T1 ainda por mobilar, Sandra encontra-se sozinha. Sem ninguém. Correcção: Sandra, apesar de tudo, não está só. Sandra tem-na a ela e ao seu filho.
9 meses de força, de coragem, de luta. 9 meses a sorrir por ver a barriga a crescer e a ouvir o seu bebé.
A sua casa, apesar de modesta, já reúne todas as condições para receber o seu filhote. Sandra não se farta de sorrir por ver aquele quartinho que, apesar de também ser seu, tem o cheiro a bebé.
Está na hora. Telefona para o 112. Espera. Espera. Espera.
A ambulância chega e leva-a para a maternidade.
Sente as dores normais do parto, nada que a faça temer. Finalmente, ouve o choro do seu filho, sorri e continua a sorrir e, apesar do cansaço, não se deixa adormecer. Quer estar junto ao seu filho, junto ao seu maior Amor. Quer sentir-lhe o cheiro, o calor, a força e a garra de uma nova vida.

Ninguém a vem ver. Inevitavelmente, pelo rosto de Sandra escorre uma lágrima longa que parece não ter fim. Sente-se desprotegida de amor daqueles que a viram crescer e que, supostamente, a amariam incondicionalmente.
Rapidamente seca a lágrima e, cheia de força, levanta-se e diz que quer ir para casa, que está bem e que não consegue estar ali inerte a ver o tempo a passar.

Chega a casa.
Deita o pequenino André no berço e, ao vê-lo a dormir, tem a certeza que um filho é sempre amado, seja qual for a altura da vida.


Carminho rapidamente regressa à faculdade.
Afonso fica com os avôs ou com a ama.
4 anos depois, Carminho é licenciada no curso que sempre sonhou. Trabalha. Casa.
Carminho, vive feliz.


Sandra é Mãe – mãe solteira - e trabalha afincadamente para que o seu filho tenha tudo aquilo a que tem direito. Porque ela ama-o e sabe que com dedicação, trabalho e força de vontade tudo se consegue.
Dois anos depois regressa à faculdade.
É Mãe. Trabalha. Trabalha. Trabalha e estuda.
Rapidamente tira o curso que sempre sonhou.
Agora, a trabalhar naquilo que gosta e com um filho a correr-lhe para os braços – apesar de nunca ter duvidado – tem agora a certeza que a sua escolha nunca, mas nunca poderia ter sido outra.
Sandra, vive feliz.



Eu voto não . Pela Sandra e pela Carminho. Por todas as mães.
Por mim.
Madalena - as cores da vida


Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

Carminho & Sandra - Versão original

«Carminho senta - se nos bancos almofadados do BMW da mãe. Chove lá fora .Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe conduz o carro e aperta - lhe ternamente a mão. Há muito trânsito na Lapa ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de Espanha.

(Mais a baixo na cidade)

Sandra senta - se no banco côr - de - laranja do autocarro 22 que sai de Alcântara. Chove lá fora. Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe está sentada ao lado dela. Encosta o guarda - chuva aos pés gelados e aperta - lhe ternamente a mão. Há muito trânsito em Alcântara ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de casa de Uma Senhora.

O BMW e o autocarro 22 cruzam - se a subir a Avenida Infante Santo.

Carminho despe - se a tremer sem nunca conseguir estancar o choro. Veste uma bata verde. Deita - se numa marquesa. É atendida por uma médica que lhe entoa palavras doces ao ouvido, enquanto lhe afaga o cabelo. Carminho sente - se a adormecer depois de respirar mais fundo o cheiro que a máscara exala. Chora enquanto dorme.


Sandra não se despe e treme muito sem conseguir estancar o choro. Nervosa , brinca com as tranças que a mãe lhe fez de manhã na tentativa de lhe recuperar a infância. A Senhora chega. A mãe entrega um envelope à Senhora. A Senhora abre - o e resmunga qualquer coisa. É altura de beber um liquido verde de sabor muito ácido. O copo está sujo, pensa Sandra. Sente – se doente e sabe que vai adormecer. Chora enquanto dorme.

Carminho acorda do seu sono induzido. Tem a mãe e a médica ao seu lado. Não sente dores no corpo mas as lágrimas não param de lhe correr cara abaixo. Sai da clínica de rosto destapado. Sabe –lhe bem o ar fresco da manhã. É tempo de regressar a casa. Quando a placa da União Europeia surge na estrada a dizer PORTUGAL, Carminho chora convulsivamente.

Sandra não acorda. E não acorda . E não acorda. A mãe geme baixinho desesperada ao seu lado. Pede à Senhora para chamar uma ambulância. A Senhora não deixa, ponha – se daqui para fora com a miúda, há uma cabine lá em baixo, livre – se de dizer a alguém que eu existo.
A mãe arrasta a Sandra inanimada escada a baixo. Um vizinho cansado, chama o 112 e a polícia.
Sandra acorda no quarto 122 dias depois. As lágrimas cara abaixo. Não poderás ter mais filhos, Sandra, disse –lhe uma médica, emocionada.
Sai do hospital de cara tapada, coberta por um lenço. Não sente o ar fresco da manhã. No bolso junto ao útero magoado, a intimação para se apresentar a um tribunal do seu país: Portugal.


Eu voto sim . Pela Sandra e pela Carminho. Pelas suas mães e avós. Por mim.
Rita Ferro Rodrigues»
Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007


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Domingo, Janeiro 28, 2007

28 - Palavras que podem mudar o Homem

4 de Abril de 1979,

_ Ajudem-me, ajudem-me! - Gritei bem alto, por entre as ruas de Lisboa.
Estava aterrorizada. Tinha 16 anos e tinham-me acabado de roubar o meu único amor: as palavras. Chorei como se tivesse acabado de nascer e, quanto mais andava, quanto mais procurava o Ser cruel que me roubara as palavras, mais lágrimas escorriam pela minha face de bebé.
Não queria nem podia conformar-me. Dirigi-me à esquadra mais próxima e denunciei o caso. Escusado será dizer que, minutos depois, tinha os meus pais enfiados, comigo, naquele cubículo a que chamam de esquadra. O meu pai pegou-me por uma orelha e, até chegar a casa, só dizia _ Vês o que dá seres tão branda com a tua filha, vês?
E, sem puder contrariar as decisões do meu pai, a minha mãe lá ia dizendo _ Alfredo, deixa lá a miúda. Tu não vês que ela ainda é uma criança?!
E para aprender a não chatear as autoridades com brincadeiras parvas – palavras usadas pelo senhor meu pai – ficara de castigo durante mês e meio. Mas nada me importava a não ser a ausência das minhas queridas palavras que, para além de estarem longe de mim, nada podia fazer para as trazer de volta, pois nem a queixa do roubo tinha sido registada.

Não saía de casa; não comia; não sorria ... não vivia.
Rapidamente, a minha nova morada passara a ser o hospital onde permaneci até ao dia do suicídio.

16 de Fevereiro de 1980,

Por mais que os médicos tentassem, não me conseguiam acordar. Há meses que permanecia num sono profundo, onde só o coração se fazia sentir.
Mas foi nessa tarde, ou nessa noite, não sei, que decidi acordar. Mas antes, tinha tido um sonho – quase real, poderia jurar - que fora fatal para a decisão que tomara a seguir.
Sonhara com as palavras que me tinham sido roubadas há quase um ano. Calmamente, a palavra mais velha, contara-me o que se tinha sucedido naquela manhã de Abril de 1979. Após terem sido roubadas e não conseguirem voltar para mim, aperceberam-se que mais ninguém as queria usar como eu as usava; que mais ninguém as queria sentir, como eu as sentia. Assim, tristes com o Homem decidiram partir deste Mundo. Tal acto fizera do Homem um ser ainda mais egocêntrico, violento e cheio de atitudes desumanas.
Levantei-me e abri a janela. Lá fora, a escuridão das almas fazia-se sentir.
Depois disso, tive a certeza que só as palavras me preenchiam e que, sem elas, tudo perdia a importância que tinha.
Olhei à minha volta e encontrei um bisturi pousado em cima de uma mesinha que se encontrara perto da porta do meu quarto. Peguei nele e, no meu braço, deixei a seguinte mensagem: “Assim, é impossível viver!”.

Horas depois deram comigo estendida no chão rodeada de sangue.
A notícia da minha morte enchera a primeira página de todos os jornais.

Hoje, cá de cima, e junto das minhas queridas e eternas palavras, vou modificando a História de Vida do Homem para que, assim, possa ter um final diferente do que já estava escrito. O final era do mais sombrio que pode haver. Mas, agora, através das minhas palavras, vou distribuindo sorrisos e generosidade para que, aos poucos, por cada boa acção que o Homem vá realizando, se possa escrever uma nova linha do livro da vida.

Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

27 - Nem sempre

Nem sempre as palavras que se dizem são aquelas que se querem dizer, porque nem sempre se ama quem se quer amar, porque nem sempre se vive como se quer viver.
Como podem as palavras ser mais do que palavras? Como podem ferir tanto alguém?
Será que elas têm esse direito? O direito de poder, de posse, de lei.
As palavras deixam de existir quando o olhar expressa tudo aquilo que elas, enquanto simples e meras palavras, não são capazes de dizer.
Assim, a força do olhar está na representação quer dos nossos sentimentos mais simples quer dos nossos sentimentos mais complexos.
E, embora ame as palavras, se um dia tivesse que escolher entre o conjunto de letrinhas e o olhar, pois muito certamente que preferia o olhar, pela sua genialidade em mostrar o quão nos sentimos felizes, embaraçados, revoltados ou, até mesmo, quando queremos que alguém nos seja indiferente.
Assim, a pureza está naqueles de quem a vê e naqueles de quem a sente.
Porque nem sempre as palavras são sinceras, porque nem sempre se quer magoar quem, com as palavras, acabamos por magoar.

Sábado, Dezembro 23, 2006

Opiniões e comentários à parte, este post foi feito única e exclusivamente para desejar a todos um Feliz, Feliz Natal!
Sejam, vocês também, felizes o ano inteiro.

Um beijo,
Madalena

*Regresso em 2007 em grande, estejam, por isso, presentes :-) *

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

26 – Uma Vida que se ama e que se quer, para Sempre

Cartas de Amor. Um Amor tão grande que preenche toda a Vida. Porque amar é saber sentir; porque amar é manter uma amizade durante uma vida; porque amar é assim: querer o amor de Alguém.
Cadernos do início da nossa vida escolar. Aprender a escrever. Letras miudinhas, meio tortas, mas feitas com jeitinho. Aprender a ler. Palavras destorcidas, mal ditas, mas com jeitinho. Aprender a aprender. Sorrir tão facilmente e caminhar de mão dada com os inúmeros amigos, feitos em um segundo, que se tem e que, tão lamentavelmente, se perdem com o Tempo.
Fotografias. Olhar para elas e ver-me ali, tão doce, tão criança, tão feliz. Descobrir a minha Vida através delas. Redescobrir hábitos, gestos e palavras, através delas. Sim, as fotografias falam. Eu sei.
Recordo. Recordo todo este Passado diariamente, Ele é o meu Presente e a certeza que, no Futuro, o irei recordar com mais intensidade.
Porque é-me importante tudo isto; porque não me imagino a perder o contacto físico com aqueles papéis já amarelados, com aquele início de Vida onde se quer tanto aprender, com aquelas fotografias que mostram todos os passos da minha existência. Porque me é importante. Sinto que é o Passado a minha Vida e que me fará falta se o perder e que, parte de mim, acabará por se desmoronar.

É o amor.
O amor sempre presente.
Ama-se alguém ou ama-se uma [a] Vida, mas ama-se.

Quarta-feira, Novembro 08, 2006

25 - O beijo

Guardo o beijo que me deste nesta doce manhã.
Passo o dia a tocar-me na face, para ver se ainda sinto os teus lábios.
Tudo parece muito mais bonito. Esta cidade parece ter ganho uma nova cor. A chuva, cristalina, retira-me o teu beijo, mas deixa o sentir. Assim, continuas comigo.
Caminho até casa. A porta abre-se, como que por magia, e eu deixo-me deslizar naquela cama que é só minha.
O frio aperta, mas eu agarro-me às memórias de um dia que me fez feliz. Aqueço-me, assim, só por pensar em ti.
Agora quero estar contigo. É de noite. Não faz mal. Enrosco-me, fecho os olhos, penso em ti e adormeço.

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

24 – Amor maternal

Adormeces e acordas dentro de mim. Vivemos juntas neste abraço eterno que é só nosso. Deixamos que os nossos olhos sorriam porque é assim que queremos viver; porque é assim que eu te quero ver a crescer, sempre com esse sorriso de criança, com esse sorriso que me alimenta e que me faz ficar assim, a olhar eternamente para ti.

Conheço-te. Sei quando os teus olhos me falam, porque tens a mania de falar assim, sem mexeres os lábios e, de olhar brilhante, vais segredando. Eu oiço-te, mesmo no meio desta Vida que é tão barulhenta, ou será tão silenciosa? Porque não há ninguém que queira ouvir e porque é assim que se vai vivendo, caminhando sempre num espaço oco de sentimentos e de desejos de amar.

Mas eu sei que serás, que já és um ser humano muito bonito e feliz.E, se um dia, tudo isto tiver que terminar, então que termine como tudo começou: com um sorriso. Porque somos humanos e nascemos a chorar e morremos a sorrir.

Domingo, Outubro 22, 2006

23 - ping-pong

Ping-pong
É o nada que me preenche
É a chuva que me seca
São os teus olhos que me cegam

És amor. És o todo que me faz falta,
Porque me matas de todas as vezes que te sinto aqui,
Presente e vivo,
Dentro de mim

Ping-pong
É assim

Sábado, Outubro 14, 2006

22 – Palavras para o menino

É segunda-feira e, por isso, Sara decide deixar o carro estacionado à porta de casa e ir de comboio. Hoje tinha uma tese importante para apresentar. Estava segura de si e, por isso, deixou o nervosismo de lado. Entra no comboio, escolhe um lugar junto da janela, senta-se e acomoda-se. Cinco minutos depois, ouve uma voz feminina que a informa que o comboio sofreu uma pequena avaria, mas o tempo para que tudo volte à normalidade é indeterminado.
Começa a olhar sistematicamente para o relógio. Os minutos parecem passar à velocidade da luz e o comboio continua ali, parado. Logo se apercebe que de nada lhe serve estar para ali meio que eléctrica e a sofrer por antecipação. Acalma-se e tenta olhar à sua volta. E ali estava o menino que ela fizera sorrir e que nela provocara um sorriso, também. O doce menino, cujo nome ela não chegara a saber, tinha uns olhos grandes, castanhos-escuros e tristes. O pequeno moreninho, de olhar sempre para baixo parecera ter medo do mundo. Os seus 6 anos, se tanto, deveriam ter sido vividos de maneira errada, daquela maneira que nenhuma criança deveria saber, conhecer e viver.
E, quando ganhou coragem, olhou para ela muito timidamente e quando os olhos deles se fixaram ele baixou de imediato o rosto. Ao seu lado, estava um homem sujo e de aspecto cruel, será, talvez o pai daquela criança sem vida.
Toda a viagem foi feita assim: olhares cúmplices que trocavam palavras silenciosas, que faziam o menino sorrir. No final, quando a viagem terminara para Sara, sorriram os dois, baixinho, e agradeceram-se mutuamente, em segredo.

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

21 - Um novo corpo, uma nova alma

Dizes que estou mais bonita. Achas que estou apaixonada e que é por isso que ultimamente os meus olhos têm brilhado tanto, mas tanto que chegam a iluminar o caminho mais escuro e sombrio. Eu não me atrevo a comentar. Sorrio, apenas. Um sorriso que me torna cúmplice dessa tua afirmação. Não tenho medo em confirmar-to, mas é-me tudo tão estranho. É claro que já estive apaixonada e é por isso mesmo que não entendo estes novos sentimentos que originam novas reacções.
Eu fico perplexa a olhar para ele e, quando isso acontece, o Mundo até pode acabar que eu não irei notar.
De todas as vezes que me apaixonei soube controlar perfeitamente os meus desejos e os meus olhares, embora quisesse ficar perto dele. Não sei porquê, mas desta vez é diferente. Para além de pensar nele constantemente, os tais olhares que, até à data, eram controlados ficam agora sem rumo. Não os consigo dominar, aliás, são os meus olhos que me dominam e que fazem com que eu sinta que toda a gente se está aperceber do meu sentimento pelo Artur, mas que, mesmo assim, eu continuo a olhar... A olhar...

Ele tem uns olhos lindos. Lindos e poderosos! E, talvez seja essa a razão, que leva o meu olhar a desviar-se do dele. Não sei se o meu corpo irá aguentar, no dia em que os meus olhos se fixarem nos dele.

Por agora, contento-me apenas por deslumbrar aquela imagem que me tem mantido viva e, de novo, apaixonada.

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

20 – Momentos

O tempo pára. O calor deixa de aquecer e o vento deixa de me bater na cara.
Vejo-te estagnado. Paraste com o tempo. Passo por ti, indiferente, e deixo que os meus olhos percorram todos aqueles corpos que pararam para me verem passar.
Ninguém sabe que eu estou ali, mas eu finjo que sou a estrela, a única que caminha; a única que é capaz de sentir todo aquele silêncio, a única que, quando todos acordarem, o saberá respeitar. Porque quando todos voltarem a caminhar apressadamente, cada um para seu lado; porque quando as vozes já se confundirem umas com as outras e quando os olhos parecerem cegos por nada avistar... Só eu vou saber como o silêncio me devolve a alma; como é tão bonito o som do mar e como é bom ver o olhar de cada ser sem se mexer e sem ter pressa de chegar ao destino que é quase diário.

Gostava que o tempo parasse mais vezes. Que, de cada vez que parasse, houvesse alguém que, como eu, deslumbrasse todo aquele momento. Assim, aos poucos, todos iriam saber como é bom sentir aquela paz e como a podemos trazer ao mundo real, onde o tempo trabalha constantemente e, por isso, jamais poderá parar.

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

19 – Se fosses tu

É à noite, quando o silêncio me invade, que me aqueço ao lembrar-me do teu sorriso e te vejo a correr por entre os campos onde o sol, ao longe, nos canta baixinho.
Recordo-me todos os dias dos momentos que passei contigo e onde fui tão feliz. Porque não os quero esquecer, lembro-me e relembro-me deles a cada instante em que o tempo parece parar.
Nós. Era a palavra que nos encantava; que nos fazia crer que iríamos morrer assim, bem apertadinhos, a rebolar naquele chão macio, que nos fazia cócegas e onde depois, aos nos levantarmos o problema era sempre o mesmo: as calças-de-ganga tornavam-se verdes. Agora sorrimos. Agora, distantes, já sem ter a certeza de que tu ainda te lembras de mim, começo a questionar-me o que seria de mim, se o homem que me acompanha, que se encontra ao meu lado, fosses tu...

Terça-feira, Setembro 05, 2006

18 - Até à próxima noite

Afagas o meu choro com os teus beijos. Beijos que me calam e que deixam o meu corpo sem formas, para que se possa moldar de modo a encaixar no teu. Deixo que me domines. De todas as noites que fazemos amor caio morta nos teus braços, deixando que me ames até à exaustão. Horas de prazer. Momentos que me ficam gravados para os poder recordar assim que a porta se fecha e tu deixas de aqui estar. Beijas-me e depois dizes adeus. Agora, caminhas para a tua outra casa, para a tua outra mulher e para os teus filhos. Caminhas para a tua família e eu fico aqui à espera da próxima noite que virás até mim, amar-me como só tu sabes. Espero-te, sempre. Até à próxima noite.

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

17 - Precisas do Mundo

Às vezes acreditas que só precisas de ti para seres feliz. Por muito que o silêncio seja importante - por nos dar as respostas às perguntas que nos fazem sofrer; por nos fazer descobrir mais um pouco de nós próprios; por nos aquecer nas noites mais frias de Inverno... Por ser assim tão mágico -, não nos podemos deixar envolver completamente nessa nódoa sem som, nesse pensamento nu, onde nada nem ninguém o invade, porque nada existe a não seres só tu. Precisas de conhecer o sabor de um abraço forte, de apoio, de encorajamento, de felicidade ou simplesmente de ternura; precisas de sentir o tocar de duas bocas que se beijam apaixonadamente; precisas de te ouvir, sim, mas precisas tanto dos outros e não o tentes negar, porque ninguém consegue viver uma vida feliz completamente só. Por isso, sorri de cada vez que te sorrirem...







*Não consegui postar mais cedo porque fiquei estes dias sem Internet.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

16 - Amar-te em palavras

Gostas de me ler. Saboreias cada palavra que é escrita só para ti. Sorris de cada vez que me vês a elogiar-te. E eu hei-de morrer a desenhar cada letra do teu nome, porque tu fazes-me bem e eu gosto de viver assim; gosto de te ver quando beijas o som de cada palavra, quando ficas ternurento ao escutar o ritmo das frases que vão chegando até ti.

É tão fácil apaixonar-me por ti. Denoto uma doçura ao penetrar na tua caligrafia, que é mágica, profunda e que me sabe roubar tão bem o coração. O teu olhar permanece sempre no meu imaginário e, assim, é fácil antever cada reacção tua, cada gesto e, até mesmo, cada pensamento teu ao ler as cartas que são exclusivamente tuas.

Os olhares não se cruzam; as mãos não se tocam; os corpos não se unem. É assim que eu te amo.

Amo-te em palavras.

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

15 - Por detrás de um olhar

- Bom dia, Joana. Passa-me, por favor, a toalha. – Disse carinhosamente Miguel com a sua habitual voz de menino que ainda precisa da mãe e que, ao acordar, parece tão inocente como um bebé acabado de nascer.
E, passando genuinamente a toalha, Joana sem nada lhe dizer, esboça apenas um sorriso.

A vida de recém-casados correra lindamente. A cumplicidade notava-se no olhar. Os lábios, mesmo sem se mexerem, falavam, embora eles fossem os únicos a ouvir aquele silêncio. O unir das mãos era feito com uma suavidade que, quando se tocavam, permaneciam unidas durante muito tempo, pelo menos o tempo necessário para se voltarem apaixonar. E, assim, os dias iam passando e a paixão continuara viva.

Joana era daquelas mulheres que acreditava que o casamento era, de facto, para toda a vida. Mas, um dia, percebeu que nada é para sempre. E, por isso, por muito que ela quisesse, o amor não duraria eternamente. Passou acreditar na efemeridade da vida no dia em que descobriu que o marido, que sempre lhe parecera tão fiel e verdadeiramente apaixonado, a traíra. O choque foi brutal. Joana sentiu o mundo a cair sobre si e para tornar a situação verdadeiramente desoladora descobrira, também naquela altura, que não tinha um único amigo, nem um único familiar com quem pudesse chorar destemidamente, sem medos e sem segredos. Lembrou-se que todos a tinham abandonado no dia em que decidiu casar com Miguel. Agora, ao se olhar, viria apenas um buraco sem fundo e, logo se apercebeu, que esse mesmo buraco correspondia ao vazio que sentia; à solidão que a envolvia e que a matava por não saber lidar com ela. O ódio por si mesma assim como o arrependimento logo surgiu. Lamentou o facto de ter lutado por um amor que não valera a pena. Não se arrependera pela relação não ter resultado, mas sim por ter sido traída mesmo antes de casar e essa traição ter continuado. E, sendo assim, não era o amor que tinha acabado, mas era sim o amor que nunca tinha nascido.

O Miguel traíra a Joana com o Orlando. O Orlando!, o grande amor do Miguel que, para o esconder, a família o obrigara a casar com a rapariguinha bonitinha mas tão ingenuazinha: Joana!

Nem os amigos, nem os familiares de Joana sabiam desse amor secreto do Miguel. Mas, a cumplicidade, o amor, a paixão verdadeiramente ardente que Joana sentia, não passara de um ilusão que só ela julgara existir. Todos que a rodeavam sempre se aperceberam da ausência de química entre o casal; do carinho forçado por parte do Miguel... Mas, para Joana – ou para os seus olhos - , tudo correra como uma verdadeira história de amor.

Traições! Enganos! Dor e mais dor! Um sofrimento profundo que, um dia, já mais não fará sentido. Nada é eterno: nem o amor, nem a dor...

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

14 - Enganos

Não importa para onde vou, porque tu estás sempre comigo. Eu sinto-te. Às vezes, quando a saudade começa apertar e me começa a magoar fecho os olhos e vejo-te, depois tento tocar-te, mas a tua imagem evapora-se. Fico, então, de novo só. O corpo vai ficando sem forças e os olhos perdem o brilho. É nestas alturas que me sinto a morrer, mas, por sorte, logo vejo a minha imagem e o meu corpo a ressuscitar.Abraço-me. Ganho forças para sair do abismo em que entrei e tento aprender a caminhar sem cair, mesmo que, por vezes, tenha que tropeçar.

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

13 - Um jantar; uma nova vida

Hoje o Miguel veio a nossa casa. A Ana chegou mais tarde, como sempre. Ela está igualzinha, até parece que o tempo não passou por ela: continua vaidosa, bem-disposta e sempre com um sentido de humor que, por vezes, a tornavam indelicada. Igualzinha aos tempos de adolescente, sempre a chegar atrasada fosse onde fosse. Já ninguém lhe dizia nada, porque já sabiam que ela era assim e tinha a necessidade de dar nas vistas e, ao chegar atrasada, e sempre tão espampanante dava nas vistas, de certeza. O Miguel não, era discreto e sempre pontual; cuidava muito do visual e nisso era igual à Ana, mesmo que ele fizesse questão em dizer que não; era intelectual, sabia sempre tudo, era o génio do liceu. E eu... Ah, eu acho que tinha um pouco dos dois. Talvez fosse a mais ponderada, sem grandes extremos. Se o Miguel nunca queria dar nas vistas acaba sempre por o fazer por ser pacato e com um ar muito anti-social. Eu era aquela que discretamente, sem ser assunto de conversa, estava sempre presente nas festas, era uma aluna mediana, social e com uma grande queda para o desporto. Ah, faltam os gémeos. O Jorge e o Gustavo. Bem, o Jorge era o mais estranho de todos nós e hoje percebemos porquê: é gay. Nunca desconfiámos porque o Jorge parecia ter dupla personalidade e isso confundia –nos e era tão bonito, mas tão bonito que ser gay ou ir para padre jamais nos passara pela cabeça. Mas hoje é um grande arquitecto, muito bem sucedido internacionalmente. O Gustavo... O rapaz por quem me apaixonei e o homem com quem casei. Os cinco e inseparáveis amigos, tão diferentes e, por isso, sempre tão unidos. Acho que nos completávamos.

Tanto a Ana como o Miguel continuam sozinhos. São complicados, eles. Escolhem demais e acho que esse é o problema. O Gustavo foi ter com o irmão, Jorge, a Nova Iorque e eu decidi convidar o Miguel e a Ana que já não os vejo há cerca de seis anos. Credo, como o tempo passa! Sempre pensei que um dia, se tivesse sem emprego, iria para Cupido. Era boa nisso! Mas a Ana e o Miguel foram o casal mais difícil de unir. Mas eu achava que ao fim de tantos anos, depois do coração tanto bater de tantas saudades eles iriam perceber o quão gostam um do outro e, finalmente, entregarem-se nos braços um do outro.
Foi uma noite inesquecível. Lá fora a chuva escorria sobre os grandes vidros da sala e nós, cá dentro, falávamos e falávamos e riamos e riamos. Relembrámos tempos antigos, episódios que eu, mesmo tão nostálgica, já tinha esquecido. E, de repente, a química entre o Miguel – que agora tinha cá um charme, em que os óculos e o ar de menino intelectual deram lugar a um homem seguro e elegantíssimo – ah se eu não fosse casada! – e a Ana – em que as purpurinas deram lugar a uma maquilhagem suave e discreta, que realçavam a sua verdadeira beleza – fizera-se notar. Eu, com aquela veia dramática que, infelizmente ou não, nunca a aproveitei, inventei uma situação e representei-a e, assim, lá consegui sair da minha própria casa deixando-os completamente a sós. Quando cheguei já cá não estavam. Deixaram um bilhete:

Mariana,
obrigada pelo jantar, estava tudo óptimo.
Esperamos que a tua tia já esteja melhor.
Agora estamos com pressa, mas daqui a pouco tempo irás receber notícias nossas.
Um beijo,
Ana e Miguel.


Duas semanas depois e recebi um postal de Las Vegas. Um postal da Ana e do Miguel que, após terem sabido que não havia tia nenhuma e, muito menos, que estava doente, disseram:

Querida Cupido Mar,
Como nos pudeste fazer isto, hein?!
Se estivéssemos aí bem sabes o que te aconteceria.
Adoramos-te e tu sabes disso, mesmo que estejamos tanto tempo sem nos vermos, mas o grande e o verdadeiro amor nunca morre e nós somos a prova disso.
Eu e o Miguel estamos muito felizes e é a ti que devemos tamanha felicidade.
Tu não mudas mesmo!
Um beijo a quem me mudou a vida. Agora já não acordo sozinha e tu tens bem a noção da gravidade da situação?! Eu, Ana, a miss beleza, a ser admirada quando acorda estando completamente natural. Que bonito. Com um simples gesto conseguiste-me mudar.
Não te esqueço.
Até...!


Gosto destes jantares, em que tudo muda...

Terça-feira, Agosto 01, 2006

12 – O mundo: uma casa que não a minha

Nunca me senti parte deste mundo. O facto de ter nascido sem ter sido desejada faz com que eu olhe à minha volte e ache que nada me pertence. Sinto que estou cá por acaso e, por acaso também, lá vou vivendo. Eu digo que sinto, mas não sei se isso será apenas ilusão. Confundo a dor com a alegria e nunca vi escorrer sobre o meu rosto aquelas pequenas gotas que dizem saber a sal. Não me dói o coração quando me dizem "não" e não me sinto ansiosa nem feliz quando me dizem "sim". Sei que há quem me ame, mas não sei o que isso é... porque não consigo amar ninguém e, por isso, quando alguém parte deste mundo para outro eu não sinto a sua falta, porque eu não sei o que é a Saudade. Sorrio independentemente da situação que esteja a viver; digo “adeus” sem hesitar e nem penso se essa pessoa irá voltar, se demorará muito ou pouco tempo, porque para mim não existe tempo. Não sei de que terra sou. Vou caminhado por aqui e por ali, vou indo na direcção das vozes que chamam pelo meu nome. Nasci por acaso e por acaso vou vivendo... sem tempo.

Segunda-feira, Julho 31, 2006

11 - Anorexia

A Teresa tinha 15 anos quando entrou em coma. Era tão nova e tão bonita, mas julgava-se feia, descomposta, desengonçada e extremamente gorda. Se a situação não tivesse sido tão grave e problemática seria irónico para aqueles que conhecem a Teresa. Como é que uma rapariga de quinze anos, com um sorriso sedutor, alta e tão elegante poderá achar que não pertence aos padrões actuais da moda?! É tão ridículo como alguém pode quase perder a vida por uma estupidez dessas. E, chega-se a uma determinada altura, que o problema deixa de ser só dela para ser de todos aqueles que a amam.
Os pais, sempre falaram tanto com ela... E quando nas novelas ou nos jornais ou nas televisões abordavam o assunto da anorexia, os pais da Teresa diziam sempre que se, um dia, por acaso, isso lhes acontecesse, eles saberiam logo notar e nunca deixariam as coisas chegarem ao ponto de ter que haver internamento devido a perturbações graves e a problemas relacionados com a saúde. Mas, as coisas acontecem sempre tão rápido, e a Teresa era uma rapariga ajuizada e, na verdade, os pais nunca se sentiram ameaçados em relação a isso, porque conheciam a filha que tinham e não a julgavam capaz de passar por tal.
E foi tão fácil perder peso. Passou a ficar mais tempo na escola e, assim, foi tudo muita mais fácil, porque se era lá que passava a maior parte do tempo, era lá que, sozinha, teria que se alimentar e, incrivelmente, teve dias que não comia nada. E, em casa, sempre que, por algum motivo, a “obrigavam” a comer ela lá o fazia, mas em seguida tudo o que tinha comido era, de imediato, “expulso”. Na escola, acreditavam que era em casa que ela tinha as boas refeições e, em casa, julgavam que era na escola... Daí, a situação da Teresa, ter sido facilitada. As roupas eram largas para não se notar a perda de peso, o rosto ia ficando cada vez mais pálido, as tonturas eram constantes e a má disposição começava a ser diária. Dias, semanas, e até meses sem ser descoberto o problema da Teresa, embora as suspeitas já começassem. Mas foi a professora de matemática da Teresa que teve em atenção a sua situação e se apercebeu do seu problema. Alertou os pais e os amigos e foi difícil fazer com que a Teresa acreditasse que estava doente, pois ela insistia em achar-se gorda, mesmo quando chegou a pesar 36 kilos. Foram tempos terríveis que deixaram marcas. Fazia impressão olhar para o rosto dela, para as suas mãos em que a pela quase se desfazia; o cabelo, tão fraco, feio e a aquela cara, com pele enrugada e só ossos, faziam crer que estávamos a olhar para um cadáver. Era terrível e foi difícil para todos superar aquela situação. Hoje a Teresa sabe que nunca deveria ter feito o que fez, sabe que a beleza que ela realmente tinha perdera-a simultaneamente com todo o peso que perdeu e, aí, ficou realmente feia, deselegante e tornou-se numa pessoa desagradável porque psicologicamente continua afectada. Mas, apesar de tudo, a situação dela poderia ter sido bem pior se ela não tivesse o apoio que teve, o amor incondicional que nunca lhe faltou, mesmo nos momentos em que ela era arrogante e desagradável para as pessoas que a tentavam ajudar. Se assim não fosse, certamente ela nunca teria saído do coma e o destino mais provável seria a morte. Mas isso não aconteceu e, agora, anos depois, continua a tentar recuperar. Está gorda, mas dos imensos medicamentos que tem que tomar e, assim, desgraçou a sua vida, pelo menos a vida de menina feliz que dantes tinha e que jamais poderá recuperar. Agora, apenas tenta ser feliz com aquilo que tem e, sem dúvida, ama todos aqueles que nunca a deixaram, porque a amizade, porque o verdadeiro amor faz com que ultrapassemos as piores situações, mesmo aquelas que nos parecem sem solução.

Sexta-feira, Julho 28, 2006

10 – A culpa é do Jazz

Sempre que nos encontramos o Jazz acompanha-nos. Foi ao som do Jazz que nos conhecemos e, foi ao som do mesmo, que eu me apaixonei por ti. Todo aquele instrumental, que nos fazia tremer e que, sem nos apercebermos, fazia com que as nossas mãos se tocassem e assim permanecessem até um de nós reparar. Vibramos só de olhar para os músicos que, com garra, tocam brilhantemente. E, por telepatia ou não, sentimo-nos capazes de amar o mundo e, naquele momento, sentimos que conhecemos todos aqueles que estão à nossa volta, a admirar toda aquela música que nos enche, por completo, as nossas almas. E, agora, é ao som do Jazz que eu escrevo; é ao som do Jazz que eu me lembro de ti e que penso como a nossa história poderia ter sido diferente ou, quiçá, ainda poderá vir a ser diferente. Será? Aprendi que eterno só mesmo as incertezas do ser humano, tudo o resto é efémero, mesmo o amor que se diz que é para todo o sempre. Até estas palavras que eu escrevo, agora, com tanto sentimento, amanhã ou depois já nada me dizem e, talvez, até chegue a pensar quem poderá ter escrito tal coisa, porque eu... Eu não fui...
Neste momento, a única certeza que tenho é que amar-te-ei até ao dia que deixar de amar o Jazz.

Quarta-feira, Julho 26, 2006

9 - Tu e Eu

Todas as noites me deixo escorregar e quando já estiver estendida no chão deixo-me permanecer assim. As lágrimas são infinitas sempre que penso em ti. Ainda sinto o cheiro da última vez em que os nossos corpos se tocaram; ainda sinto o sabor dos teus lábios a tocarem nos meus; ainda... Ainda te sinto.
É obsessivo este estado de dependência, este viver só para ti. O telefone toca e, por pensar que és tu, deixo tudo, deixo a minha vida só para ir ao teu encontro. Porque sofro se não estás, porque morro se contigo não estou; porque eu sou tu e tu és eu.

Terça-feira, Julho 25, 2006

8 - Quando existe a atracção mas falta o amor

Sempre que me tocas fazes-me crer que sou única. Arrepio-me de tanto prazer e tu, depois de tantas noites de amor, dizes-me sempre: “Tu precisas de alguém, mas não sou eu a pessoa mais indicada”. E eu continuo aqui, sempre à espera da próxima noite em que nos tocaremos como se fosse a primeira vez. Preciso de ti para me sentir viva e preciso de ti porque te quero. Não percebo que, mesmo sem usares as palavras para dizeres que me amas, tenhas atitudes que me fazem pensar que tu estarás sempre comigo e depois, abraças-me, beijas-me e dizes-me que não és a pessoa mais indicada! Não consigo compreender o que essa frase quererá dizer. E mesmo sem perceber, não serei eu a pessoa mais indicada para saber se tu és ou não a pessoa que me completa, a pessoa que eu necessito?! Pois eu sei que és tu quem eu sempre procurei e desculpa se não queres que eu percorra atrás de ti, mas és-me importante demais para eu te deixar fugir assim. Cansei-me de não te ter por inteiro, de te sentir sempre incompleto; cansei-me de te olhar e ver que te falta algo e que tu, mesmo assim, não queres que eu te preencha esse vazio que tanto nos incomoda. Que os nossos corpos se atraem desde o primeiro dia que se viram, não há dúvidas, mas só me falta uma coisa para me sentir realizada: falta-me o teu amor e, eu sei, que um dia o terei. Porque quando queremos muito uma coisa e o sentimento é verdadeiro, então tudo correrá como o desejado. E eu desejo-te e, por isso, ter-te-ei.

Terça-feira, Julho 18, 2006

7 - Histórias verdadeiras

Há alturas em que ela sente a necessidade de ouvir música num tom que seja mais elevado que a sua voz, de tal maneira que, quando falar, não se oiça. Assim, conta segredos. Desabafa e conta histórias para quem quiser ouvir. Não são histórias de príncipes e princesas, cavalos e dragões, são histórias verdadeiras. Histórias de amores e desamores, de momentos de glória e outros de tédio e melancolia. Histórias verdadeiras são as histórias da sua vida.
A música é o seu maior trunfo para conseguir vencer na vida. A música conhece-a como ninguém, sabe de todos os seus segredos e, assim, sempre que ela canta não há uma única palavra que seja dita que não tenha um significado, uma pequena história por contar. Todas as palavras são ricas, não só em significados, mas também em sentimentos; expressam desejos, ordens e valores; expressam a sensação do momento, o estado de espírito em que se está envolvido.
Ela ama as palavras. Respeita-as como pequenos grandes tesouros. E, sempre que a tristeza apertar, lá vai ela aumentar o som da aparelhagem e, assim, soltar tudo o que há em si. Remover a dor e, por conseguinte, substitui-la por uma sensação de bem-estar. Às vezes, ela quer esquecer tudo aquilo que a faz ficar presa ao passado. Às vezes, ela só se quer sentir livre: livre de amores, livre do medo... Livre de si e das suas histórias verdadeiras, mas sempre presa à música.

Segunda-feira, Julho 17, 2006

6 – Haja amor e tudo é possível

Ouve, Maria. Escuta. Não ouves? Não há nada para ouvir? Só há silêncio? Pois é isso que eu quero que oiças. Ouvir o silêncio é saber ouvir-te a ti mesma. O silêncio pode ser tranquilizador, mas também pode ser traiçoeiro e, em vez de calma e harmonia, pode fazer com que fiquemos sobressaltados, amedrontados e, até mesmo, aterrorizados. Calma, não tenhas medo, Maria. Tudo depende da maneira como o ouves. Não consegues, não é? Olha, aprende amar-te e, depois disso, vais ver que tudo é possível.

Domingo, Julho 16, 2006

5 - Escassa Vida

Olho para mim e vejo que já nada resta. O tempo passa e tudo acaba por se desfazer. Não interessa se recuo ou se avanço, porque seja o que for que eu faça já é tarde. Toco-me e já não me sinto. As estradas que percorri já não existem e as escolhas que fiz, agora, já não fazem mais sentido. Caminhei sempre cuidadosamente para que tudo o que, até à data, estava bem construído não se perdesse de repente. Caminhei cuidadosamente para que não houvessem lacunas e para que eu, no fim da minha vida, pudesse olhar para trás e sentir que tive Vida! Mas nada restou, apenas o vazio que se, talvez, tivesse esquecido o ‘politicamente correcto’; tivesse amado quem eu quis e quem me quis amar; tivesse percorrido caminhos ocultos na tentativa de alcançar os meus sonhos, talvez estivesse agora no meu rosto cheio de rugas um sorriso de sabedoria, de quem sabe o que é viver. E, se para saber o que é viver, eu tivesse que cair muitas vezes nos degraus da vida, então que caísse, pois logo me levantaria e, assim, ia aprendendo a viver para depois recordar, sorrir e para sempre adormecer.

Quarta-feira, Julho 12, 2006

4 - Carta para o João

Nunca me compreendeste mas, mesmo assim, sempre me amaste. Agarraste na minha vida de todas as vezes que sentiste que eu a estava a perder. Hoje já deixei de tentar perceber porque é que insistes em estar a meu lado, eternamente a meu lado. Conheces-me por completo, sem segredos. Acho que se, por algum motivo, um dia destes me abandonasses eu já não mais saberia viver. Fazes parte de mim e eu preciso de ti para continuar a caminhar sem medos e sem a vontade de voltar para aquele mundo que me tirou a capacidade de sonhar, de amar e até mesmo de viver. E tu, sempre tu, que agarras as minhas duas mãos, olhas-me para os olhos e proteges-me. Acho que nos conhecemos desde sempre, não é assim, João?! Conheceste o meu sorriso e, depois, assististe a toda a minha destruição. Mesmo cheio de vontade, nunca me fizeste perguntas, apenas me abraçavas bem forte sempre que eu precisava. Necessitaria de uma nova vida para te conseguir agradecer tudo aquilo que sempre fizeste por mim: aguentaste todo o meu mau humor, a minha agressividade para com tudo e todos e, sem eu nunca te ter pedido perdão, tu perdoaste-me. Hoje, ao ver-te a morrer, tenho a necessidade de te contar tudo. Contar-te tudo aquilo que nunca soubeste, nem tu, nem ninguém. Então ouve-me, meu doce e eterno João:

Foi quando fiz 20 anos que conheci o Bernardo. Sim, o Bernardo!, aquele menino rico e mimado, como tu dizias. Mas foi por ele que me apaixonei e foi com ele que, aos poucos, fui conhecendo todo o tipo de drogas.
Nós amávamo-nos muito! Ao fim de uns 3 meses de namoro fui notando alguns comportamentos menos normais por parte do Bernardo. Até que um dia, em que eu fui ter com ele à sua casa, ele me tratou de uma forma bastante agressiva e, em seguida, saiu a correr. Por momentos, cheguei mesmo a ficar assustada e, por isso mesmo, decidi segui-lo. Foi o maior choque da minha vida quando soube que o Bernardo era um toxicodependente. Respirei fundo e fui ter com ele. Olhámo-nos intensamente e depois abracei-o com toda a minha força. E, de mãos dadas, seguimos até casa. Ele contou-me há quanto tempo e como tudo tinha começado. Eu prometi que nunca o ia deixar de amar e, consecutivamente, nunca o iria abandonar. Afinal, mesmo sem saber, apaixonei-me por ele e ele já tinha entrado neste mundo que, até à data, sempre me foi desconhecido. A partir daquele dia eu e o Bernardo passamo-nos amar ainda mais. E, num dia, quis experimentar tudo aquilo; descobrir todas aquelas sensações e tentar perceber porque é que o Bernardo tinha optado por aquele caminho. Mas ele nunca quis. Nunca! Mas estávamos naquilo juntos e eu, parvamente, acreditava que só o podia ajudar se soubesse verdadeiramente por aquilo que ele estava a passar. E, sem que ele soubesse, inicie-me, primeiro com as drogas mais leves, depois com as mais ‘pesadas’. Aos poucos, começava a gostar de toda aquela sensação, daquele poder que se exercia sobre mim. Mas todas essas sensações acabaram no dia em que comecei a sentir a necessidade de as consumir, não pelo prazer, mas pela simples necessidade de sobrevivência. E foi assim que eu e o Bernardo nos envolvemos mais e mais nessa vida. E, ironicamente ou não, eu envolvi-me mais que ele.
Foi tudo tão rápido que eu, quando dei por mim, estava completamente dentro daquele abismo. Visivelmente mais magra e a perder tudo o que tinha de mais valioso. Mas tudo piorou após a morte do Bernardo. Foi como se tivesse perdido tudo aquilo que me restava; foi como se tivesse perdido a minha vida, se é que já não a tinha perdido antes. O Bernardo morreu por causa da droga e a mistura de amor que eu tinha por ele e a necessidade de consumir drogas dava comigo em doida. E, já completamente louca, quis morrer como Bernardo. Se por ele – mesmo sem ele querer - , eu tinha entrado naquela vida era, por ele, que eu assim iria morrer. Vê-lo morrer tão lentamente é a lembrança que eu tenho de toda a minha vida. Tantos e tantos anos de amor e tantos e tantos anos perdidos, anos que o mataram e que, cruelmente, aqui me deixaram. Eu sei, João, o que tu deves estar a pensar, mas também sei que, mais uma vez, me vais estender a mão, beijar-me a face e dizeres que me amas. Às vezes pergunto-me porque é que eu não me apaixonei por ti, talvez fosse mais feliz por não ter tido a vida que tive, mas seria certamente muito infeliz por não ter o amor do meu Bernardo. Eu acredito que tudo tem uma razão de ser e, se o destino existe, este foi o meu. A ti, meu querido e eterno amigo João, não sei se te agradeço por me teres conseguido arrancar do abismo em que eu estava metida, ou se te devo culpar por não ter morrido e estar, como prometi, para sempre com o Bernardo. Hoje és tu que eu vejo partir, talvez porque te cansaste de me ver sofrer. E agora, João, o que vai ser de mim sem ti?
Perco os meus dois amores e já nada resta.
Não morri com o meu Bernardo, mas morro contigo, meu João.

Um beijo a quem sempre me soube amar sem nunca me julgar.

Inês

Segunda-feira, Julho 10, 2006

3 - Sereia divina

Apaixonei-me por ela no dia em que a vi andar sobre o mar. Os meus olhos perderam-se facilmente. A sua pele morena e aquele cabelo liso, comprido e tão claro deixaram-me, por segundos, sem respiração. Ainda pensei que estivesse a sonhar, não só pela beleza divina daquele ser humano, mas de todo aquele ambiente que me rodeava. Era Inverno e a areia daquela praia, só nossa, era fria e macia; o vento, devagarinho, batia nos rostos daqueles que por lá se atrevessem a passar e as ondas do mar eram ainda mais misteriosas. Mas aquele meu ar tão distante fez com que uma onda ‘arrebenta-se’ sobre o meu corpo e, assim, logo me apercebi que aquele ‘balde de água fria’ que eu pude sentir sobre a minha pele não se podia tratar de um sonho. Sorri e decidi segui-la. Passo por passo. Ouvindo o som do mar, assim como ela. Entretanto, o meu jeito sempre trapalhão, fez com que tropeçasse no meu próprio pé e, antes que tivesse tempo para me levantar, já estava ela de mão estendida pronta ajudar-me.

( Disso eu nunca me vou esquecer. Não era suposto termo-nos conhecido assim. Eu é que, como um gentil e nobre cavalheiro, a devia salvar dos inúmeros e perigosos dragões que - a bem ver, naquele caso, era mais provável serem tubarões – a pudessem magoar. Mas assim não foi e, contra isso, não há nada a fazer. )

Olhámo-nos intensamente e eu pude sentir toda aquela magia nas minhas mãos, no meu peito, no meu olhar, nas mãos dela, no peito dela, no olhar dela e em todo o nosso redor. O mundo parou aí. Nada mais existia a não serem duas almas que se tentavam completar.
Foi aí que pude ouvir a voz dela a pronunciar o seu nome. Aquela sereia que nadava fora do mar chama-se Leonor. Amei-a intensamente como se fosse o meu primeiro amor, pois para mim cada amor é um amor e a cada um nos devemos entregar com a mesma força e com a mesma capacidade de acreditar que aquele sentimento será para todo o sempre. E, por tudo isso, eu amo-te! Sim, amo-te, porque um dia já te amei e, com isso, fomos felizes.

Quinta-feira, Julho 06, 2006

2 – O rapaz que queria ser Poeta...

Nunca quis ser jogador de futebol, actor ou até médico como a maioria dos jovens. Quis ser poeta! Nasci e cresci no seio de uma família pobre o que me agradava pois sempre achei que os grandes poetas tinham sempre grandes histórias de vida e eu acreditava que sendo um menino vestido com alguns trapos, por vezes, rotos, teria uma sensibilidade maior do que qualquer outro ser. E tinha. Assim que aprendi a ler comecei a devorar todos os romances que, na altura, existiam. Apaixonei-me pela história de amor de Romeu e Julieta, de William Shakespeare e, com eles, chorei. Lia à noite, por debaixo dos colchões, usando uma pequena vela que se colocava na mesa ao lado. Aos meus pais, que queriam apenas que eu estudasse para um dia ser um senhor doutor, dizia que o escuro da noite me assustava e, por isso, a luz da vela era indispensável para que pudesse adormecer sossegadamente. Meses depois, de muita leitura nocturna, quase sem luz, fui obrigado a usar óculos e gostei. Os óculos faziam de mim um rapaz intelectual, no fundo, como todos os grandes poetas. E o centro de Lisboa, que me via acordar e adormecer todos os dias e todas as noites dava-me a inspiração que eu necessitava para escrever. E eu escrevia, escrevia e escrevia. As palavras saíam-me facilmente e, com a mesma facilidade, fazia versos e construía poemas. Eu gostava do que escrevia e sempre me achei capaz de criar grandes obras. Livros de quinhentas páginas, que toda a gente lê e que eu, ao passar na rua, seria reconhecido por todos. Imaginava um futuro brilhante e, até mesmo quando eu morresse, todos iriam falar naquele menino tão simples e pobre que nascera em Lisboa e cujo talento lhe fizera conquistar meio mundo. Eu passava o dia a sonhar... E era feliz por pensar que um dia o ia ser verdadeiramente.
Adorava andar pela rua, de pés descalços, respirando o ar daquela cidade que, na altura, era tão mais saudável. E, enquanto os meninos lá fora iam jogando à bola, eu preferia isolar-me num cantinho que era só meu, que eu descobri para poder escrever. O meu pai é que se fartava de reclamar pela minha fraca estrutura óssea e, nessas alturas, fazia um sorrisinho e um ar angelical e voltava para o meu refúgio. Naquela altura, as horas custavam a passar. A televisão, mesmo a preto e branco, era coisa rara e eu fazia parte dos milhares que sempre que via uma ficava boquiaberto e é claro que as poucas vezes que consegui olhar para uma era sempre na casa de um amigo de famílias mais favorecidas. Mas esses bens materiais nunca me fizeram falta. Eu só queria ser poeta. E fui... Um fraco e falhado poeta, mas fui. Milhares de sonhos foram destruídos no momento em que decidi levar uns quantos poemas a uma editora. Lembro-me como se fosse hoje, todos os editores por onde eu passava, que não eram muitos, assim que liam a primeira quadra olhavam para mim e desatavam-se a rir. E enquanto eu queria ser reconhecido pela qualidade da minha escrita, os editores em questão achavam que eu poderia funcionar bem a nível de mercado. E, nos primeiros meses, tudo funcionou como eles queriam. As vendas tinham aumentado imenso e eu preenchia as capas de todas as revistas e jornais da região. Depois... depois, nem a proeza de ter sido classificado como o pior escritor do século me fez continuar no tope. E, assim, os sonhos de criança foram talentosamente destruídos e, o que me valeu, foi que ainda fui a tempo de recomeçar a estudar... E hoje sou médico, sou infeliz, mas médico!

Quarta-feira, Julho 05, 2006

1 – Passado que me mata

Passaram quase 35 anos desde o dia em que apanhei aquele maldito comboio para Paris. Era um simples miúdo como todos os outros e, por isso, preferi conhecer o mundo ao invés de partilhar a minha vida com a Paula. Eu amava-a, mas só hoje é que tenho consciência disso. Na altura o amor aparecia-me sempre de forma abstracta, nunca o pude ver ou sentir. É claro que a Paula dizia-me sempre “Rui, tu amas-me, eu sei!”. Mas eu não sabia. Ela era tão bonita. Antes de partir, eu e a Paula tivemos uma noite magnífica, de entregas. No fundo, e só hoje sei disso, foi uma noite de puro amor. Aqueles cabelos negros a passarem pela minha cara, aqueles olhos grandes e negros, também, a olharem-me fixamente faziam-me crer que eu ia ter aquela mulher para todo o sempre... Até quase desisti da viagem. Mas assim que ela adormeceu, beijei-lhe os lábios e parti sem nada lhe dizer. Já na estação, enquanto ia batendo alternadamente com os dedos na minha perna, esperava ansiosamente pelo comboio que, para me contrariar, estava atrasado. Eu não acreditava no destino. Se fosse hoje, percebia logo que o facto de o comboio estar uma hora e trinta e cinco minutos atrasado era um presságio que me faria ficar naquela terra. Mas não fiquei. E o pior foi quando eu, já dentro do comboio, vi a Paula que, enquanto chorava, ia gritando que me amava e que não me queria perder assim. E, de repente, imensos olhares que me eram estranhos invadiram-na e eu, discretamente, virei o rosto como se não fosse nada comigo. Lentamente, o comboio começou andar, eu acabei por adormecer... Anos depois, quando acordei, era um homem viúvo, sem filhos, sem nada, apenas com as recordações das imensas viagens que fiz, dos conhecimentos que travei mas que hoje de nada me servem. Agora, todos os dias, vou morrendo um pouco de cada vez que penso nos grandes olhos negros a derramarem lágrimas por mim. Mas só morrerei definitivamente no dia em que as lágrimas da Paula tiverem secado por completo.

As cores da vida

Num dia uma lágrima, no outro um sorriso; às vezes a tempestade, outras vezes um sol de radiar (...). Assim é a vida que nos faz continuar a caminhar, para lhe retirar a amargura e devolver-lhe a doçura.

Movendo os meus dedos sobre o teclado construirei palavras até se formarem frases e, aos poucos, a história se vai formando até, um dia, eu colocar um ponto final.