quinta-feira, julho 22, 2010

47 - prefiro

se desejasse a rotina, bem sei que ela matar-me-ia. porquê? porque dentro do meu inconformismo, já me conformei que não é recta a linha da minha vida! posso perder-me nos meus gritos de loucura, mas são nesses mesmos gritos que me encontro. preciso. sinto. vivo. e pé ante pé, vou escutando este silêncio, de aspecto desinteressante, mas de uma alma que me arrepia. oiço-o e por ele deixo-me guiar. dou-lhe voz. sorrio-lhe. abraço-lhe. beijá-lo-ia, se pudesse. se nem a minha alma sossega, como poderia desejar uma vida monótona, onde as oportunidades de aprendizagem tocar-me-iam no ombro, mas cega, seria incapaz de as ver, agarrar? prefiro assim. prefiro assustar-me com o amanhã, chorar, berrar, rir e brilhar; prefiro ser eu e tudo o mais quanto possa ser; prefiro abarcar este mundo e o outro, se houver; prefiro ser gente e com a gente refilar, criticar, amar; prefiro a intensidade de qualquer sentimento à sua pobreza; prefiro preferir, escolher, optar; prefiro cair pela minha preferência, escolha, opção à preferência, escolha, opção de outros alheios ao meu interior. prefiro Ser. eu, sempre eu. simplesmente eu.

uma vez mais.

domingo, junho 27, 2010

46 - olhos meus

olhos meus,

são passagens monumentais
aquelas que me preenchem e que,
àquela pequenez de gente, ditam
as verdadeiras lições sentimentais

é perpétuo o som desta loucura,
da demência desta gente
que teima em estar presente
numa realidade inexistente

são palavras ditas em vão,
sorrisos e olhares mecânicos
que me atiram para o chão
de um mundo já sem paixão

são olhos,
olhos meus
olhos que ditam uma alma que se esconde
                        de vergonha de estar presente
                        num mundo de máquinas que não sente

terça-feira, fevereiro 02, 2010

45 - A voz

A voz suave que me percorre o corpo, que me abraça e me conforta. A voz com que sonho, com que desejo, com que vivo. A voz que eu oiço, que só eu oiço, à espera de um dia ter a força para, num simples murmuro, poder ser ouvida, escutada. A voz que, por tantas vezes, foi obrigada a se calar. Ah, esta voz... é menina, de pés descalços e rouca, rouca de gritar para um povo que não a quer ouvir, que finge não existir. Um povo que não se digna a Viver, apenas se limita a existir. A voz insiste e existe!, mas esta gente teima em fingir que nada acontece, que nada importa, que nada interessa, que nada revolta! Ah, como esta gente é louca, louca por se deixar envolver numa realidade que não existe; louca por se deixar conformar e mergulhar num fundo onde a lágrima e o rosto de sufoco daquela pequena criança, não é capaz de transparecer. Depois choro, como se o meu choro pudesse calar a voz que insiste, que persiste, que luta e não desiste. Quase que morro de angustia ao ver a inércia deste povo. Ah, que povo, que ausência de carácter, que ausência de humanismo. Ah, como isto me sufoca, me entristece, me revolta. Delicadamente, aos poucos, eu darei forma a esta voz e, esperando que não seja tarde de mais, ela vai ser ouvida e envergonhará cada um que se deixou conformar com um mundo politicamente correcto, mas sem escrúpulos.

Um dia, irei ver esta voz que, embora rouca, transpirará o brilho de ter conseguido; de ter transformado ausência em presença, inércia em acção e a lágrima só será permitida quando o sorriso não for suficiente para expressar o mais bonito dos sentimentos.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

44 - para onde foi a nossa alma de criança?

São tantos os momentos que me ligam a ti, carregados duma intensidade que os proíbe de se evaporarem da minha memória, onde tudo acontece. Sem ver, abusa-se no sentir. Sobre o doce olhar que me guia, eu penso em ti. E tu, pensas em mim? Pergunto-me, enquanto o chocolate quente me aquece o corpo, a alma. Parece que ninguém é capaz de te dar a conhecer o Amor, aquele que tantos anseiam encontrar na sua eterna procura. Descansadamente, sorris e fazes troça de mim. Passas tantas vezes por mim e, com aquele olhar indiferente, segues o teu caminho. Depois, lentamente, olhas para trás e vês-me partir. O Senhor Manuel, do café junto à escola primária, fez-me essa confissão e ainda me disse ‘menina, olhe que o seu rapaz qualquer dia ainda se perde’. Corei como se ainda tivesse 7 anos, como se ainda estivesse na escola primária, como quando pegavas na minha mão e dizias ‘quando formos grandes casas comigo?’. Só o Senhor Manuel continua a trabalhar, no mesmo café. Tudo o resto mudou. Mais velhos, mais complicados e distantes um do outro, embora trabalhemos no mesmo escritório, assim vamos vivendo. Todos dizem que gostamos um do outro. Como é que ‘todos’ se apercebem disso? Todos menos nós. Acabamos por cair num ciclo ridículo, onde a paixão dera lugar a um amor que é vivido em segredo, porque o medo corrói-nos. E é com esse medo que vivemos. Sozinhos, sem partilhar doces chupa-chupas, fingimos que nenhum de nós existe. Fingimos que não gostamos um do outro e deixamos a nossa alma de criança por aí, algures perdida, algures enterrada.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

43 - tua alma

recordar-me de ti
é ganhar a força de que preciso
para resistir à tentação
de te abandonar sem aviso

os olhos que deixam de ver
e a alma que deixa de sentir
só tu alcanças o meu espírito
e não me deixas desistir

posso fingir que não te escuto
e demonstrar uma raiva que não sinto
mas sorrio, por dentro,
por te ter aqui comigo

liberta-me de mim, por favor
ajuda-me a sentir,
agarra-me e não me deixes cair
para que possa renascer e assim poder viver

suavemente libertam-se gritos de dor
onde só os olhares mais cúmplices
fazem a menina levantar-se e agradecer
por este seu amigo não a deixar morrer

domingo, dezembro 20, 2009

Parabéns, minha Mãe

Este sim é um post pessoal, sem ficção, onde as personagens são reais e desempenham o papel de mãe e filha. A diferença é que eu, aqui, para além de sentir também vivo, porque esta é a minha história. Espero que compreendam a diferença ;)

Querida mãe,

Há pessoas que, indiscutivelmente, fazem parte de nós. Sorrimos por ver o seu sorriso e desmoronamo-nos quando sentimos a sua tristeza. Pessoas que estão sempre connosco, estejamos nós onde estivermos. Sentir que alguém faz parte de nós, que nos complementa, nos completa, nos enche de Vida é tão bom. Há quem diga que quem nos ama não nos pode fazer sofrer. A verdade, porém, é que são precisamente as pessoas de quem gostamos que mais nos magoam. A razão é mais simples do que se poderia supor. As palavras só ganham significado por quem as diz. A mesma palavra tem, certamente, uma força diferente conforme a pessoa que a diga. Não me afecta minimamente as palavras maldosas de gente que não me é especial, que desconheço ou por quem não nutro afecto. Mas uma palavra mal dita de quem se Ama? Ai como dói. Magoa. Mata por dentro. E porquê? Porque precisamos tanto do amor dessa pessoa que esquecemo-nos que ela também é Humana, que erra e que não vive neste Mundo exclusivamente para nos agradar. Mas nós, tolos, colocamos num pedestal bem alto todos aqueles que nos preenchem por dentro, consideramos essa gente intocável, seres quase superiores, que têm obrigatoriamente que corresponder às nossas expectativas. Depois... depois a queda é grande, quando nos sentimos desiludidos ou, talvez, envolvidos numa ilusão que, agora, nos faz sofrer.

Este borbulhar de emoções, de afectos, de sonhos, desejos; este conflito interno de querer tanto que o outro nos ame tanto ou mais do que nós o amamos; este acreditar que só os outros nos magoam e só nós temos os valores e as acções perfeitas; este sofrer pelas acções dos outros que nos são queridos; este vibrar intenso com a vida dos nossos amores...

Para tanta, tanta, tanta gente tudo o que acabei de dizer é excessivamente intenso, desnecessário e, para alguns mais radicais, será obsessão ou, até mesmo, de forma extremista, doentio. Ao ponto em que chegámos. Considerar alguém diferente só porque sabe Amar. É triste. É tão triste esta mentalidade de que só Eu sou importante, de que só posso pensar em mim e sofrer por mim. Onde está o altruísmo? Morreu há muito, parece. Por isso, quando vêem alguém tola como eu, riem, fazem troça. E eu sorrio. Sorrio porque sei que, neste caminho que continuo a fazer questão de percorrer, já sei Amar como muita gente não sabe. E é bom. Muito bom, apesar das imensas dores de cabeça que se tem, das imensas lágrimas que se deixa derramar... assim vive-se. Mudar? Não. Simplesmente aprender a ganhar defesas para que as quedas, aquando uma desilusão, não sejam tão dolorosas. E aprender a saber perdoar é divino, por ser tão importante. Perdoar uma, duas vezes é Humano; perdoar repetidamente um mesmo erro é Estupidez.

Há pessoas que queremos ter connosco para toda a nossa Vida – aquela Vida que julgamos ser eterna. Uma dessas pessoas és tu, minha querida Mãe. É impossível imaginar cada vitória sem ti, cada pequena derrota sem ti, sem o teu aparo, o teu apoio, a tua coragem, a tua força. Preciso tanto de ti. Preciso tanto daquela mãe que brincava comigo, ria comigo, partilhava segredos comigo. Preciso tanto daquela mãe que me viu crescer, que me soube amar de braços abertos, de coração aberto. Preciso tanto daquela mãe companheira, sorridente, feliz, doce, optimista. Preciso tanto daquela mãe que fez com que Amasse tanto a minha infância por ter sido tão perfeita. Preciso tanto daquela mãe que irá acompanhar toda a minha vida futura, que fará parte dos meus projectos, que vibrará com eles e sorrirá por ver todos os meus sonhos a ganharem corpo, vida, força!

Minha Mãe...

Saber que à mínima discussão contigo o meu dia está condenado ao fracasso e a uma tristeza que me corrói. E tudo isto porquê? Porque te Amo Tanto. Preciso de ti. Preciso do teu Amor – do Nosso Amor.

Quase três meses e meio sem te abraçar, te tocar, te olhar nos olhos. Uma saudade que me faz crescer e amar-te mais, bem como perceber a importância que tens na minha vida. Como gosto de ti, Chiça!

E hoje, minha mãe, é o teu Aniversário. 20 de Dezembro, e tu sem mim. Cinco dias depois, a 25 de Dezembro, e tu sem mim, e eu sem ti. Mas é tão bom termos esta capacidade de querer aprender e não é, de todo, a distância física que nos separa. Temos Amor suficiente para construir o nosso caminho, inabalável, e que, obrigatoriamente, se cruza. Por isso, temos vantagem. Estamos a passar por uma experiência que poucos têm a sorte, ou a coragem, de a viver. Por isso, é com um enorme sorriso no rosto que digo: P A R A B É N S! E quero, verdadeiramente, que penses que tudo aquilo que acontece não é por acaso e que os maiores obstáculos só se atravessam daqueles que têm a força para os ultrapassar. Fecha os olhos. Eu fecho os meus, também. E pensemos nos pequenos pormenores que, embora pequenos, fazem toda a diferença.

Aproveita o dia de hoje. Vive-o! Abarca cada gesto e respira todos os sonhos que ainda tens por realizar. Vais conseguir, sabes disso. Consegues sempre. Sempre! Minha mãe, minha Super-Mulher, minha Heroína.

Gostava de te poder dizer mais, mas não sei que palavras usar, porque todas me parecem tão poucas para demonstrar aquilo que sinto por ti.

Amo-te. Ontem. Hoje. Amanhã. Sempre.

Um beijo,

         Da tua filha que te adora,

                                                          Sara Mota

sábado, novembro 14, 2009

42 – (sem) amor

O teu cheiro não me sai da pele e o fumo dos teus cigarros teimam em permanecer no meu cabelo. Adias a tua partida. Todos os dias voltamos a fazer amor como se fosse a última vez. Todos os dias inundo esse teu olhar de beijos embrulhados em lágrimas ocultas. Desejo-te, mas sei que partirás.
Tremo de cada vez que as tuas mãos tocam nas minhas, de cada vez que nos envolvemos nos braços dum do outro. Tremo de cada vez que a ânsia de te ter me percorre o corpo e me diz, baixinho, "vais ficar sozinha, de novo... uma vez mais".

Esmoreço.
Deixo-me cair, no meio da sala, naquele tapete que a avó me deu, naquele tapete que, por tantas vezes absorveu o meu choro e as gotas de whisky ou do vinho tinto que acabam por escorrer da garrafa… ou até dos meus lábios, quando perdem a vontade de sentir, de viver.

Tu não sabes, mas vais embora.
É sempre assim. O amor, por aqui, nunca dura muito tempo – acaba sempre por partir. Tu não serás a excepção e esta voz que teima em me avisar, em me relembrar, dá-me razão e tira-me o sossego.

Desespero.

Depois dirás que a culpa foi minha, porque fui eu que insisti em ver o que não era possível de visualizar, porque não existia; que ouvia o que não tinha som; que teimava em acreditar numa história que não era real. E, assim, em vez de viver aquele amor, fazia questão de o sentir já morto, mesmo quando tinha acabado de nascer.

Eu direi que és louco, como digo sempre, a todos. Deixarás escorrer uma lágrima e dir-me-ás que fui uma desilusão e pela tua boca sairão palavras como amo-te, és diferente, única, especial, tenho pena, fim.

Responderei com gritos de desespero, com palavras maliciosas e com gestos suicidas. E a voz continua em mim, dizendo "vês?! Eu avisei-te. Disse-te que ele iria embora. Vais ficar sozinha, de novo... uma vez mais". E como por instinto faço com que essa voz se oiça, dizendo bem alto, já com o copo de whisky na mão,
             vês como vais embora?... Porque não acreditaste em mim e não partiste mesmo antes de teres chegado até mim?

Fechas a porta.

Deixo-me cair no meio da sala, naquele tapete que a avó me deu...
A história repete-se.

                É o fim.

sexta-feira, outubro 23, 2009

41 - Estrela

Adormeço enquanto a Estrela, ao longe, continua a sua caminhada.

Na mão leva o cesto que a alimentará por alguns dias, não muitos. Por cima do seu cabelo loiro, a fita castanha que a mãe lhe dera. E no olhar suporta a esperança de abarcar uma nova vida, onde os sonhos se transfigurem e passem a ser a sua mais bela realidade.

Esta menina tem corpo de bailarina, voz de fadista e alma de poeta.

Os pés doridos fazem crer que a sua [primeira] caminhada estará a chegar ao fim. Os sapatinhos, feitos pela avó, vão-se despedaçando, mas não a abandonam. O silêncio daqueles dias absorvem-lhe por completo, mas o sorriso estampado no rosto faz emergir toda a confiança que tem, ou que aprendeu a ter.

Esta Estrela há-de brilhar. Vai voltar a nascer e, desta vez, vai vencer. Não haverá Lobos capazes de a consumirem, nem Ovelhas capazes de a enganar. Desta vez, a menina de olhar doce, não se deixará iludir. Cantará de cada vez que a voz da Desistência teimar em se ouvir. Cantará para preencher o vazio daqueles que ela tanto ama, aqueles que deixara aquando o início desta sua viagem.

Transporta a sede de uma ânsia descomunal, que não se prende com preconceitos. Uma sede sem limites, insaciável.

Esta Estrela há-de brilhar. Pisará todos os palcos existentes e permanecerá naquele que a faz tão feliz, aquele que a completa, preenche e que lhe devolve a paz de que necessita. Esta menina, de sorriso no rosto, de olhar simples, de palavra sincera, que magoa quem assim não o é, será figura de cartaz e fará jus ao seu nome: Estrela.

Será naquele pequeno lago que verá o seu reflexo, a sua imagem que pretende manter, o olhar que não quer perder, pois quer ser estrela, sem deixar de ser a Estrela.

quarta-feira, setembro 23, 2009

40 - a tua voz

Julgar-te-ia longe, se não tivesses tão perto; mergulharia em ti, se a minha sede não tivesse saciado; conjugaria o verbo existir no futuro, se a nossa história ainda não tivesse terminado.

Sinto o frio de cada noite solitária, o frio que me aquece, que me conforta, que me adormece; sinto a lágrima que não escorre, mas que me percorre com um força que não se esgota e que me cansa; um olhar incolor, que não cativa, que não arde com o murmurar que é cúmplice, mas efémero. Penso em ti, às vezes. Sorrio e sei que vou ficar aqui, até a tua voz chamar por mim.

quarta-feira, março 04, 2009

39 - Pulsões

Sois sonho, sois miragem
Água doce, puro mel
E de entre sopros de vento
Perfuras o centro do meu contentamento

Folhas, ervas, jasmim
É o cheiro de uma pele junto a mim
Que ofusca um prazer desmesurado,
Um prazer sem limite, sem fim.

Música detentora de um poder singular,
Onde os dias parecem horas,
E a chuva a bênção de um amor
Fugaz, denso e inspirador,

Onde olhares cruzados são
Raios, trovões, paixões!

terça-feira, agosto 26, 2008

38 - Expulsa

A escolha foi tua, meu amor. Escolheste magoar-me vezes sem conta e, um dia, fartei-me de dizer que te amava, de fazer o melhor que sabia para te agradar. Fartei-me de ser compensada com gritos, berros, palavras ofensivas e injustas… Palavras que tanto feriram os meus ouvidos. Fartei-me de amar quem não se apercebe desse amor ou, ainda pior, se se apercebe, o quer matar.
Será pecado odiar tanto quem, um dia, nos gerou? Odiar profundamente aquela mulher que, um dia, chegámos a dizer “és a melhor mãe do mundo”? Não, não pode ser. Pecado é falsificar sentimentos, esconder emoções e viver dizendo o que não se sente. Pecado é dizer-se “eu mato-te”, pecado é magoar-se desta forma alguém… e se substituirmos alguém por filha, o pecado será, certamente, bem maior.
A escolha foi tua. Não posso continuar a viver no meio desta esquizofrenia, porque estou farta de, sem perceber porquê, mudares de personalidade de dois em dois segundos. Faz-me mal viver assim; faz-me mal expulsar-te da minha vida, mas se continuar a viver assim vou morrer, todos os dias, um pouco mais.
A escolha foi tua. E talvez até tenhas sido tu que, com essa forma de viver, me tenhas expulso da tua vida. Eu não sei. Roubaste-me todas as certezas que fui construindo ao longo da vida…mas uma nova se criou: vou vencer nesta vida e vou vencer sem ti.

A escolha foi tua, mãe.

terça-feira, julho 22, 2008

37 - Réplicas

Poderia fazer réplicas do sorriso e usá-las em momentos de melancolia ou, até mesmo, de dor profunda. Réplicas, simplesmente réplicas que, ao olhos dos comuns mortais, passariam por obras originais. Mas de que me servem falsas cópias? Para quê construir uma imagem que não reflecte a bravura das ondas que destroem o verdadeiro mundo?, o mundo a que nem todos têm acesso: o coração.

De que serve a brisa de uma noite límpida se tu não estás? Onde vou buscar o beijo que me fazia adormecer todas as noites se o meu doce beijador decidiu ser livre? Preciso de ti e tu, meu amor, precisas de mim. Eu sei.

Ah, estes seres que se dizem racionais acreditam que o Tesouro encontra-se soterrado, algures numa ilha esquecida. Que tamanha tolice. Quando é que aprenderão que as pérolas não são visíveis e que se encontram disfarçadas em sentimentos, em lágrimas cristalinas e em sorrisos de princesa?

Dava a minha vida para que tu, meu eterno menino, pudesses viver para poder ser feliz. Fazia-o mesmo tendo em conta todas as noites em que, dadas as tuas tempestades, me fazes lembrar como tudo poderia ser diferente se não existisses, como os problemas poderiam ser diminutos … Dava tudo para que os teus olhos nunca deixassem de brilhar…
Para aqueles que não entendem é obsessão, para os especiais é Amor.

segunda-feira, novembro 05, 2007

36 - Eu, às vezes, ainda acredito

Às vezes ainda acredito em mim; ainda acredito que posso mudar, que posso vencer. Acredito na minha voz, nas minhas palavras que me soam tão sinceras. Mas a verdade é que eu não posso mudar, não posso deixar de ser o que sou, com tudo o que isso implica: com tudo o que tem de mau e de bom. Perco-me em histórias que só se contam uma vez, que nunca mais se repetem. Entristeço-me de cada vez que me pinto de uma cor que não a minha, que faço transparecer sonhos que não são os meus. Falsas ideologias, falsos rostos, falsas almas. Falsa vida. Pertencer a um mundo que não o nosso, só por que com isso se obtém menos críticas, menos protestos, menos olhares que nos condenam, mais ‘amigos’, mais poder, mais angústia … acaba-se por cair num conformismo irritante, que me destrói, que nos destrói. Como se, no fundo, a base da vida fosse simplesmente viver para agradar a quem nos rodeia, mesmo que isso tenha que significar esquecermo-nos de quem somos e vestirmos a pele de um outro ser que, provavelmente, até nem gostamos, mas, como se tivesse mesmo que ser, acabamos rendidos a uma mente, a uma personalidade que não a nossa, mas a única que é conhecida pelos outros, que é socialmente aceite.

O medo existe. Existe o medo de falhar, de se mostrar que falha, que se erra, que se é Humano… existe um medo incontrolável de se dizer “Não”, de achar que o outro é-nos sempre superior e, por isso, querer ser como ele, pensar como ele, errar como ele: viver a vida dele. Sendo que o cúmulo é que esse ele certamente que está a viver a vida de um outro que, por sua vez, também vive a vida de um alguém… Um ciclo que não tende acabar se não houver quem diga Não de cada vez que não concordar com algo; que diga Basta de cada vez que se deparar com uma injustiça; que Não tape os olhos de cada vez que o Mundo se estiver a desmoronar à sua frente…

Às vezes ainda acredito em mim. Às vezes ainda acredito que esta História que é a Vida pode acabar com o final feliz.

Eu, às vezes, ainda acredito.

domingo, junho 17, 2007

Parabéns...

... não à Madalena, mas à Sara! Ou seja, parabéns a mim. 20. ai...

sábado, junho 09, 2007

35 – Eu não queria

Há mundos que se transformam com uma rapidez que assusta. Entre o querer e o não querer a barreira é curta, quase inexistente. É preciso cuidado. É preciso cuidado para não tropeçar e cair do lado errado do mundo. Eu tropecei. Caí e ainda não me levantei, ainda não consegui começar a caminhar na direcção do mundo onde, outrora, me encontrara.
Sem limites. Experimenta-se o primeiro cigarro, o primeiro charro, as primeiras bebedeiras, as primeiras loucuras. Sentimo-nos únicos, felizes e com uma capacidade incalculável de continuar a experimentar mais e mais. As primeiras dietas. Os primeiros dias sem comer. As primeiras compulsões. Os primeiros vómitos provocados. Os primeiros laxantes.
Eu queria ter experimentado tudo, mas eu não queria ter continuado, eu juro.
Olho à volta. Começo a sentir que este já não é, de todo, o meu mundo. Isolo-me. E, quanto mais o tempo passa, mas distante estou de tudo aquilo que me fazia bem, que me fazia sorrir e rir como uma louca.
Agora, só a dor me faz bem; só esta sensação de perda me alimenta o gosto de querer continuar à procura de uma perfeição que não existe.
E se no início é difícil esconder este novo comportamento, estes novos ideais, depois torna-se fácil. A revolta, aparentemente, desaparece. Consigo sorrir mesmo quando por debaixo das camisolas se encontram as cicatrizes que um dos meus novos amigos, o x-acto, me fez na noite passada. Depois disto, já nada importa. A mentira é constante. Mente-se a primeira vez, mente-se até ao fim.
Desisto de tudo. Dos falsos amigos, do namorado, do amor, da vida. O medo e a solidão, a dor e o prazer, passaram acompanhar-me. Não existe quem me ame. Sinto isso, de cada vez que tento pedir ajuda e ninguém reconhece, pelo meu rosto, pelas minhas palavras, esse mesmo pedido. Manda-se uma mensagem a uma amiga: “Estás em Lisboa?”, ela responde “não”. Tudo bem, na verdade, também não sei se conseguiria contar-lhe alguma coisa; no momento, faltar-me-iam as palavras e eu sentir-me-ia ainda mais inútil. Foi melhor assim.
Apesar de tudo, sei que não sou a única que vive neste mundo e isso, apesar de parecer cruel, faz-me sentir que não estou verdadeiramente só.

Eu não queria.

sexta-feira, maio 11, 2007

34 - nada

quanto mais penso, mais vontade me dá de desistir, de parar, de deixar de amar, de deixar de confiar, de deixar de acreditar... de morrer.
nada resta senão este corpo pesado, abarrotar de dor. nem um sonho realizado. nem um sorriso sem ser forçado. nada de nada. eu e só eu. ou seja, nada.
perdi-me em ti. acreditei e agora morri. perdi-me em mim. acreditei e agora morri.
arte de representar, um sonho. psicologia, um sonho. escrita, um sonho. amar, um sonho. ser feliz, um sonho. a minha vida? um sonho. nada real, nada, nada, nada...

eu. simplesmente eu.
ao final da tarde, semi-deitada, a olhar-me, escrevo a história do dia seguinte. porque conheço a minha vida, sei-a de cor. escrevo-a, já que não a vivo.


permaneço viva nos meus sonhos, mas morta na minha vida.

sábado, abril 07, 2007

33 - Até sempre, Maria

Faz, hoje, dez anos que a Maria morreu. É impossível esquecer. O que mais a marcava era o seu sorriso, tão puro, doce, tão alegre. A Maria tinha uma energia inesgotável, tinha apenas dois anos a mais que eu e era a minha melhor amiga.
Quando dormíamos na casa duma da outra, passávamos as noites a fazer planos. A nossa vida estava mais que organizada. Seríamos grandes pediatras, casaríamos com dois irmãos ingleses e moraríamos, todos juntos, numa fabulosa quinta. Teríamos quatro filhos e seríamos muito felizes. Nessas noites prometíamos ser as melhores amigas do mundo. E essa, essa foi a única promessa cumprida.
Eu sempre a invejei. Ela era bonita, das melhores alunas da escola e tinha todos os rapazes atrás dela. Os pais da Maria tinham ido para a Suiça pouco antes dela atingir a maioridade. Até nisso ela tinha sorte. A Maria era considerada perfeita. E, embora fosse a minha melhor amiga, detestava quando os meus pais me comparavam com ela.
Depressa a Maria se tornou maior de idade e como prenda tivera uma casa em Leiria.
Dois dias depois a tia Betty tinha falecido. Os meus pais foram a Itália, ao funeral, e depois acabaram por passar lá uns tempos, assim foi porque a Maria convidou-me para ir morar com ela. Eu adorei. Pela primeira vez achara os meus pais os melhores do mundo. Mas graças à Maria, claro.

Passou-se um ano. Eu estava completamente dependente da Maria e, no fundo, ela de mim. O sorriso da Maria era contagiante. Em tantos anos de convivência com a Maria nunca a tinha visto chorar, mas, nestes últimos meses, ela andava mal, algo a preocupava, e eu sabia. Mas, nunca falámos muito sobre isso. As poucas vezes que tocávamos no assunto ela desviava sempre o olhar e começara a falar noutra coisa e eu não insistia, nunca percebi o porquê, mas eu também andava muito cansada e triste porque o Guilherme não me ligava nenhuma.

Lembro-me tão bem. Foi numa quinta-feira de manhã. A Maria acordou primeiro que eu e disse-me: "preciso falar contigo. Por favor, ouve-me..." disse isso com um tom melancólico, deprimido e completamente desesperado. E eu dormia, ou fingia que dormia para não ter que acordar às 8h da manhã, num domingo de chuva.
Ela veio ter comigo e deu-me um beijo na testa. Olhou-me e deixou cair uma lágrima que me tocou no rosto.
Saiu, deixando a porta entreaberta.
Acordei eram 11h13 minutos. Senti a ausência da Maria. Espreguicei-me. Permaneci deitada ainda uns bons quinze minutos. Chamei pela Maria, mas nada. Levantei-me.
Percorri a casa, a pequena e airosa casa e a Maria não estava. Voltei ao quarto: uma carta. De repente ocorreu-me mil e uma imagens, das mais desagradáveis que pudessem haver. Tive medo, tive muito medo de a abrir. Lentamente desdobrei a carta, que dizia assim:
« Um dia, quando acordamos e nos apercebemos que há muito que não sonhamos, então aí, já não faz mais sentido viver.
Querida Marta,
Nunca fui feliz como sempre quis demonstrar que o era; sempre sorri para não ter que chorar. Mas hoje, ao querer falar contigo e tu continuares nesse sono profundo, senti-me tão só que nem imaginas. Chorei muito, muito mesmo, mas tu dormias, não ouviste.
Bolas, estou farta de sofrer escondida, sozinha, de sofrer neste cubículo só meu, de sofrer e de ninguém entender. FARTA!
Chama-me doida, doente, o que quiseres mas eu estou mesmo farta disto tudo. Com ou sem motivos, assim termino este meu sofrimento.
Um beijo e um até sempre,
Desta tua sempre – fracassada – amiga.
Desculpa-me...
»

A carta estava cheia de erros e a letra estava quase ilegível.
A Maria tinha-se suicidado. Naquele momento parecera que eu morrera também.
Incrivelmente não chorei. Apenas, uma incontrolável dor ia-me destruindo por dentro. E a culpa era minha.
Os pais da Maria , que sempre demonstraram pouco afecto e dedicação por ela – que eu na altura sempre julgara isso como sendo das melhores coisas que pudessem acontecer – puseram-me um "processo em cima": dizendo que eu era a culpada do sucedido. Claro que o tribunal não me atribuiu qualquer tipo de pena. Mas, se eu perante a lei nada de mal tinha feito perante os meus sentimentos eu era a pior das criminosas.
Eu tinha 17 anos, e por só pensar em dormir tinha perdido para sempre a Maria.

Hoje, passados dez anos – a Maria teria 29 anos – tenho uma filha linda, uma filha que se chama, também, Maria. A minha filha é tão ou mais bonita que a minha eterna amiga e têm as duas o mesmo sorriso. Podem ser muito parecidas mas vão ter destinos muito diferentes.

Para ti, minha amiga Maria,
gosto e vou gostar sempre muito de ti
e hoje sou eu que digo: desculpa-me...

Escrito a 15 de Fevereiro, Terça-feira, de 2005

domingo, março 25, 2007

32 - Grávida!

- Rita, ouve-me!...
- Por favor, Sofia, mudemos de assunto. Tu conheces-me e sabes muito bem como é que eu funciono. Preocupo-me com as pequenas coisas, mas com as de maiores dimensões tento só pensar no momento adequado, no momento que considero certo - tento não sofrer por antecipação, opto pelo optimismo. Percebes?
- Percebo que tens medo, Sofia.
- Talvez... mas trata-se do meu futuro, e isso assusta-me.
- Continuo achar que isso tudo ou é medo ou é cobardia.

E nesta conversa de messenger, o silêncio instala-se.

Minutos depois:

- Eu estou contigo, Rita.
- Não... Eu precisava de alguém que me dissesse aquilo que eu queria ouvir e não tudo o que tu tens dito até agora...
- Mas, Rita, é só para teu bem!
- Não te preocupes, Sofia. Eu safo-me sozinha.
Sem ti. Sem ninguém. Eu safo-me.

Rita fica offline.


[Dois dias depois]

- Finalmente, Rita!! Estou farta de te ligar e tu nada...
- Desculpa, Sofia.
Olha, estou grávida. Tinhas razão...
Na nossa última conversa eu já sabia, mas não tive coragem para te contar...
Não, o filho não é do Vasco, mas sim do Filipe.
Eu sei que namoro com o Vasco, mas o Filipe reapareceu na minha vida e disse que me amava e que faria de tudo para ficar comigo... o tempo passou e eu, quando dei por mim, estava deitada, na cama com ele.
Foi uma estupidez, mas aconteceu. Até porque... o Filipe voltou a desaparecer. Ou seja, estou só, novamente. Acreditei nele e deixei-me levar... Agora lixo-me.

Estou de rastos, Sofia.
Um beijo e até mais... Agora vou-me embora. Só te queria contar isto, mas não tenho coragem para ler o que tu tens para me dizer. Acho que já me sinto suficientemente estúpida para ouvir-te dizer o mesmo.
Beijo, obrigada, gosto de ti.

terça-feira, março 20, 2007

31 - Folha solta de um diário perdido

Não!, eu não quero comer.

Sinto que ninguém me entende e isso mata-me por dentro.
Da mesma forma que tenciono alcançar a perfeição, tenho um desejo enorme em desistir de tudo. Na verdade, só quero ser livre. Livre de dores e preocupações. Quero, por instantes, ser uma adolescente [já mulher] irresponsável que apenas quer viver e ser feliz.

Seria fácil escrever nesta folha ainda por preencher o quão choro compulsivamente, o quão me odeio. Mas não! Não é isso que vou fazer. Vou adoptar a postura contrária. De nada serve aceitar uma atitude depressiva que, mais tarde ou mais cedo, me fará 'bater no fundo'. Assim, é-me fácil sorrir, é-me fácil dizer 'sim, estou bem'. Sim, é fácil mentir.

Quanto mais o tempo passa, mais acredito em mim. Exclusivamente em mim. Sei que estou nisto sozinha e é sozinha que alcançarei o mesmo objecto. Mas... Será que os fins justificam sempre os meios? Bem, mentiria se dissesse que sim. Mas, a verdade (se ainda souber o significado de tal palavra), é que não sei e pouco me interessa.

Resiste-se à dor, ao sofrimento; resiste-se ao Mundo. A comida, essa, é difícil de resistir, mas quando se consegue, uma, duas, três e quatro vezes, tudo parece possível. Tudo é possível!
Não deixo que ela me controle e, com todas as minhas forças, não me deixo render face aos seus encantos. Sei que serei capaz: capaz de continuar a esconder esta minha situação; capaz de continuar a caminhar pelas ruas certas, pelo caminho que eu escolhi ser o certo. Sem me questionar, limito-me a agir.

Sem 'ana' nem 'mia', limito-me a viver à minha maneira.
A folha que inicialmente era branca, agora escrita com palavras e sentimentos sem nexo, continua sem vida, vazia, oca de um mundo que talvez não existe, mas que eu quero procurá-lo.

E é assim que continuarei: a procurar... procurar... procurar...

terça-feira, março 13, 2007

30 - Sem som

Canto baixinho só para eu ouvir. Porque hoje dói-me a voz, dói-me o desejo de ser quem não sou.
Um dia, quando se puder escrever fim, no livro da minha vida, há páginas que se rasgarão de tanta dor que carregam, de tantas lágrimas que já suportaram. Uma por uma, as folhas irão cair e deixarem-se morrer. E, seja onde for, haverá sempre a memória de um ser que queria morrer e voltar a nascer num outro corpo, para ter uma outra vida e, assim, escrever-se uma nova história.