domingo, março 25, 2007

32 - Grávida!

- Rita, ouve-me!...
- Por favor, Sofia, mudemos de assunto. Tu conheces-me e sabes muito bem como é que eu funciono. Preocupo-me com as pequenas coisas, mas com as de maiores dimensões tento só pensar no momento adequado, no momento que considero certo - tento não sofrer por antecipação, opto pelo optimismo. Percebes?
- Percebo que tens medo, Sofia.
- Talvez... mas trata-se do meu futuro, e isso assusta-me.
- Continuo achar que isso tudo ou é medo ou é cobardia.

E nesta conversa de messenger, o silêncio instala-se.

Minutos depois:

- Eu estou contigo, Rita.
- Não... Eu precisava de alguém que me dissesse aquilo que eu queria ouvir e não tudo o que tu tens dito até agora...
- Mas, Rita, é só para teu bem!
- Não te preocupes, Sofia. Eu safo-me sozinha.
Sem ti. Sem ninguém. Eu safo-me.

Rita fica offline.


[Dois dias depois]

- Finalmente, Rita!! Estou farta de te ligar e tu nada...
- Desculpa, Sofia.
Olha, estou grávida. Tinhas razão...
Na nossa última conversa eu já sabia, mas não tive coragem para te contar...
Não, o filho não é do Vasco, mas sim do Filipe.
Eu sei que namoro com o Vasco, mas o Filipe reapareceu na minha vida e disse que me amava e que faria de tudo para ficar comigo... o tempo passou e eu, quando dei por mim, estava deitada, na cama com ele.
Foi uma estupidez, mas aconteceu. Até porque... o Filipe voltou a desaparecer. Ou seja, estou só, novamente. Acreditei nele e deixei-me levar... Agora lixo-me.

Estou de rastos, Sofia.
Um beijo e até mais... Agora vou-me embora. Só te queria contar isto, mas não tenho coragem para ler o que tu tens para me dizer. Acho que já me sinto suficientemente estúpida para ouvir-te dizer o mesmo.
Beijo, obrigada, gosto de ti.

terça-feira, março 20, 2007

31 - Folha solta de um diário perdido

Não!, eu não quero comer.

Sinto que ninguém me entende e isso mata-me por dentro.
Da mesma forma que tenciono alcançar a perfeição, tenho um desejo enorme em desistir de tudo. Na verdade, só quero ser livre. Livre de dores e preocupações. Quero, por instantes, ser uma adolescente [já mulher] irresponsável que apenas quer viver e ser feliz.

Seria fácil escrever nesta folha ainda por preencher o quão choro compulsivamente, o quão me odeio. Mas não! Não é isso que vou fazer. Vou adoptar a postura contrária. De nada serve aceitar uma atitude depressiva que, mais tarde ou mais cedo, me fará 'bater no fundo'. Assim, é-me fácil sorrir, é-me fácil dizer 'sim, estou bem'. Sim, é fácil mentir.

Quanto mais o tempo passa, mais acredito em mim. Exclusivamente em mim. Sei que estou nisto sozinha e é sozinha que alcançarei o mesmo objecto. Mas... Será que os fins justificam sempre os meios? Bem, mentiria se dissesse que sim. Mas, a verdade (se ainda souber o significado de tal palavra), é que não sei e pouco me interessa.

Resiste-se à dor, ao sofrimento; resiste-se ao Mundo. A comida, essa, é difícil de resistir, mas quando se consegue, uma, duas, três e quatro vezes, tudo parece possível. Tudo é possível!
Não deixo que ela me controle e, com todas as minhas forças, não me deixo render face aos seus encantos. Sei que serei capaz: capaz de continuar a esconder esta minha situação; capaz de continuar a caminhar pelas ruas certas, pelo caminho que eu escolhi ser o certo. Sem me questionar, limito-me a agir.

Sem 'ana' nem 'mia', limito-me a viver à minha maneira.
A folha que inicialmente era branca, agora escrita com palavras e sentimentos sem nexo, continua sem vida, vazia, oca de um mundo que talvez não existe, mas que eu quero procurá-lo.

E é assim que continuarei: a procurar... procurar... procurar...

terça-feira, março 13, 2007

30 - Sem som

Canto baixinho só para eu ouvir. Porque hoje dói-me a voz, dói-me o desejo de ser quem não sou.
Um dia, quando se puder escrever fim, no livro da minha vida, há páginas que se rasgarão de tanta dor que carregam, de tantas lágrimas que já suportaram. Uma por uma, as folhas irão cair e deixarem-se morrer. E, seja onde for, haverá sempre a memória de um ser que queria morrer e voltar a nascer num outro corpo, para ter uma outra vida e, assim, escrever-se uma nova história.

quinta-feira, março 01, 2007

29 - Carminho & Sandra - Versão 2

[Vejam o post anterior, o texto é o original... Eu apenas quando o li não resisti e escrevi-o à minha maneira. Dois textos; duas histórias; dois destinos]


Carminho acorda e, ainda deitada, ouve o som da chuva que tanto lhe agrada. Sorri, pois sabe que, naquele instante, haverá outra pessoa qualquer a sorrir, também.
Enrosca-se nos lençóis, de pura seda, e entra num sonho profundo, quase real de tão bonito que era. Volta acordar e à sua vota tem a avó que lhe acaricia a mão, o namorado que lhe beija a testa e a mãe que trás o pequeno almoço: fruta, tanta e tanta fruta; uma bola de gelado de baunilha e uma cereja no topo; fruta e mais fruta; croissants; doce de morango e marmelada e um copo de leite com mel, bem quentinho.
Carminho tem 18 anos e uma vida dentro de si. Olha para a barriga e acaricia-a. Sente-se feliz. Muito e muito feliz.
9 meses recheados de amor, afecto, atenção, gargalhadas, fotografias cheias de sorrisos de gente feliz.
Chegou o dia. Calmamente dirige-se para a maternidade, acompanhada por toda a família e por todos os amigos. As lágrimas caem-lhe com as dores das contracções e com o peso da barriga que, inevitavelmente, se faz sentir.
A malinha com as coisas para a mamã e para o bebé já estava preparada há muito.
Entra na maternidade, grita de dor e de prazer. Finalmente, ouve o choro do seu filho, sorri e, de tanto cansaço, acaba por adormecer.
Cá fora, recebe-se a notícia de que o menino Afonso acaba de nascer. É um menino lindo e saudável.
A felicidade é notória e toda a gente se mostra impaciente para felicitar a mamã, para a mimar ainda mais e para rechear o bebé de coisinhas boas.
Carminho acorda.
Basta abrir os olhos e olhar à sua volta para ver que nunca está só. Recebe flores, ursos grandes e ternurentos, bombons e tudo aquilo a que ela julga ter direito.
Carminho levanta-se ligeiramente, pega no seu filho, abraça-o com cuidado, e à volta tem aqueles que a amam.
É o quadro perfeito.


Sandra acorda e, ainda deitada, ouve o som da chuva que tanto lhe agrada. Sorri, pois sabe que, naquele instante, haverá outra pessoa qualquer a sorrir, também.
Apetecia-lhe ficar mais um bocadinho, enroscadinha naqueles mantas, feitas por si, mas o tempo é pouco e a vida não lhe permite tamanhas regalias. Olha para a barriga e acaricia-a. Levanta-se. Come a última maçã. Veste-se e sai de casa. Está frio, muito frio. O dia, cinzento, é triste e chora compulsivamente. Olha para a carteira e vê que se esqueceu das moedas que lhe permitem apanhar o comboio com destino a Lisboa, Oriente. Olha para o relógio e vê que já tem pouco tempo, apressa-se e volta a casa para ir buscar o seu dinheiro.
Quase sem fôlego vê o comboio passar mesmo à sua frente. Agora, tem de esperar pelo próximo.
O frio quase que corta a sua face branca, tão branca, que parece neve de tão gelada que está.
Sentada, recupera agora o fôlego de uma manhã, como todas as outras manhã, cheia de pressas e correrias.
De repente, lá ouve o som desejado "vai dar entrada na linha dois o comboio com destino a Lisboa, Santa Apolónia". É este!, diz aliviada.
Chega ao Oriente e ainda tem de apanhar o autocarro até ao Saldanha.
Finalmente chega ao trabalho. Terminam as primeiras oito horas. São 16h e para Sandra o dia está longe de terminar. Dirige-se para o Marquês de Pombal para trabalhar mais oito horas.
Meia-noite. Agasalha-se e corre para a paragem. Sorri por ainda conseguir apanhar o autocarro, depois volta a sorrir por ele ter chegado ao destino a horas e, assim, conseguir apanhar o Comboio até ao Entroncamento.
É de madrugada.
Descalça-se e estende-se na cama. Está estafada. Olha para o telemóvel e nem uma chamada, nem uma mensagem. Naquele T1 ainda por mobilar, Sandra encontra-se sozinha. Sem ninguém. Correcção: Sandra, apesar de tudo, não está só. Sandra tem-na a ela e ao seu filho.
9 meses de força, de coragem, de luta. 9 meses a sorrir por ver a barriga a crescer e a ouvir o seu bebé.
A sua casa, apesar de modesta, já reúne todas as condições para receber o seu filhote. Sandra não se farta de sorrir por ver aquele quartinho que, apesar de também ser seu, tem o cheiro a bebé.
Está na hora. Telefona para o 112. Espera. Espera. Espera.
A ambulância chega e leva-a para a maternidade.
Sente as dores normais do parto, nada que a faça temer. Finalmente, ouve o choro do seu filho, sorri e continua a sorrir e, apesar do cansaço, não se deixa adormecer. Quer estar junto ao seu filho, junto ao seu maior Amor. Quer sentir-lhe o cheiro, o calor, a força e a garra de uma nova vida.

Ninguém a vem ver. Inevitavelmente, pelo rosto de Sandra escorre uma lágrima longa que parece não ter fim. Sente-se desprotegida de amor daqueles que a viram crescer e que, supostamente, a amariam incondicionalmente.
Rapidamente seca a lágrima e, cheia de força, levanta-se e diz que quer ir para casa, que está bem e que não consegue estar ali inerte a ver o tempo a passar.

Chega a casa.
Deita o pequenino André no berço e, ao vê-lo a dormir, tem a certeza que um filho é sempre amado, seja qual for a altura da vida.


Carminho rapidamente regressa à faculdade.
Afonso fica com os avôs ou com a ama.
4 anos depois, Carminho é licenciada no curso que sempre sonhou. Trabalha. Casa.
Carminho, vive feliz.


Sandra é Mãe – mãe solteira - e trabalha afincadamente para que o seu filho tenha tudo aquilo a que tem direito. Porque ela ama-o e sabe que com dedicação, trabalho e força de vontade tudo se consegue.
Dois anos depois regressa à faculdade.
É Mãe. Trabalha. Trabalha. Trabalha e estuda.
Rapidamente tira o curso que sempre sonhou.
Agora, a trabalhar naquilo que gosta e com um filho a correr-lhe para os braços – apesar de nunca ter duvidado – tem agora a certeza que a sua escolha nunca, mas nunca poderia ter sido outra.
Sandra, vive feliz.



Eu voto não . Pela Sandra e pela Carminho. Por todas as mães.
Por mim.
Madalena - as cores da vida


Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

Carminho & Sandra - Versão original

«Carminho senta - se nos bancos almofadados do BMW da mãe. Chove lá fora .Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe conduz o carro e aperta - lhe ternamente a mão. Há muito trânsito na Lapa ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de Espanha.

(Mais a baixo na cidade)

Sandra senta - se no banco côr - de - laranja do autocarro 22 que sai de Alcântara. Chove lá fora. Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe está sentada ao lado dela. Encosta o guarda - chuva aos pés gelados e aperta - lhe ternamente a mão. Há muito trânsito em Alcântara ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de casa de Uma Senhora.

O BMW e o autocarro 22 cruzam - se a subir a Avenida Infante Santo.

Carminho despe - se a tremer sem nunca conseguir estancar o choro. Veste uma bata verde. Deita - se numa marquesa. É atendida por uma médica que lhe entoa palavras doces ao ouvido, enquanto lhe afaga o cabelo. Carminho sente - se a adormecer depois de respirar mais fundo o cheiro que a máscara exala. Chora enquanto dorme.


Sandra não se despe e treme muito sem conseguir estancar o choro. Nervosa , brinca com as tranças que a mãe lhe fez de manhã na tentativa de lhe recuperar a infância. A Senhora chega. A mãe entrega um envelope à Senhora. A Senhora abre - o e resmunga qualquer coisa. É altura de beber um liquido verde de sabor muito ácido. O copo está sujo, pensa Sandra. Sente – se doente e sabe que vai adormecer. Chora enquanto dorme.

Carminho acorda do seu sono induzido. Tem a mãe e a médica ao seu lado. Não sente dores no corpo mas as lágrimas não param de lhe correr cara abaixo. Sai da clínica de rosto destapado. Sabe –lhe bem o ar fresco da manhã. É tempo de regressar a casa. Quando a placa da União Europeia surge na estrada a dizer PORTUGAL, Carminho chora convulsivamente.

Sandra não acorda. E não acorda . E não acorda. A mãe geme baixinho desesperada ao seu lado. Pede à Senhora para chamar uma ambulância. A Senhora não deixa, ponha – se daqui para fora com a miúda, há uma cabine lá em baixo, livre – se de dizer a alguém que eu existo.
A mãe arrasta a Sandra inanimada escada a baixo. Um vizinho cansado, chama o 112 e a polícia.
Sandra acorda no quarto 122 dias depois. As lágrimas cara abaixo. Não poderás ter mais filhos, Sandra, disse –lhe uma médica, emocionada.
Sai do hospital de cara tapada, coberta por um lenço. Não sente o ar fresco da manhã. No bolso junto ao útero magoado, a intimação para se apresentar a um tribunal do seu país: Portugal.


Eu voto sim . Pela Sandra e pela Carminho. Pelas suas mães e avós. Por mim.
Rita Ferro Rodrigues»
Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007


http://sorriso-do-bisturi.blogspot.com/

domingo, janeiro 28, 2007

28 - Palavras que podem mudar o Homem

4 de Abril de 1979,

_ Ajudem-me, ajudem-me! - Gritei bem alto, por entre as ruas de Lisboa.
Estava aterrorizada. Tinha 16 anos e tinham-me acabado de roubar o meu único amor: as palavras. Chorei como se tivesse acabado de nascer e, quanto mais andava, quanto mais procurava o Ser cruel que me roubara as palavras, mais lágrimas escorriam pela minha face de bebé.
Não queria nem podia conformar-me. Dirigi-me à esquadra mais próxima e denunciei o caso. Escusado será dizer que, minutos depois, tinha os meus pais enfiados, comigo, naquele cubículo a que chamam de esquadra. O meu pai pegou-me por uma orelha e, até chegar a casa, só dizia _ Vês o que dá seres tão branda com a tua filha, vês?
E, sem puder contrariar as decisões do meu pai, a minha mãe lá ia dizendo _ Alfredo, deixa lá a miúda. Tu não vês que ela ainda é uma criança?!
E para aprender a não chatear as autoridades com brincadeiras parvas – palavras usadas pelo senhor meu pai – ficara de castigo durante mês e meio. Mas nada me importava a não ser a ausência das minhas queridas palavras que, para além de estarem longe de mim, nada podia fazer para as trazer de volta, pois nem a queixa do roubo tinha sido registada.

Não saía de casa; não comia; não sorria ... não vivia.
Rapidamente, a minha nova morada passara a ser o hospital onde permaneci até ao dia do suicídio.

16 de Fevereiro de 1980,

Por mais que os médicos tentassem, não me conseguiam acordar. Há meses que permanecia num sono profundo, onde só o coração se fazia sentir.
Mas foi nessa tarde, ou nessa noite, não sei, que decidi acordar. Mas antes, tinha tido um sonho – quase real, poderia jurar - que fora fatal para a decisão que tomara a seguir.
Sonhara com as palavras que me tinham sido roubadas há quase um ano. Calmamente, a palavra mais velha, contara-me o que se tinha sucedido naquela manhã de Abril de 1979. Após terem sido roubadas e não conseguirem voltar para mim, aperceberam-se que mais ninguém as queria usar como eu as usava; que mais ninguém as queria sentir, como eu as sentia. Assim, tristes com o Homem decidiram partir deste Mundo. Tal acto fizera do Homem um ser ainda mais egocêntrico, violento e cheio de atitudes desumanas.
Levantei-me e abri a janela. Lá fora, a escuridão das almas fazia-se sentir.
Depois disso, tive a certeza que só as palavras me preenchiam e que, sem elas, tudo perdia a importância que tinha.
Olhei à minha volta e encontrei um bisturi pousado em cima de uma mesinha que se encontrara perto da porta do meu quarto. Peguei nele e, no meu braço, deixei a seguinte mensagem: “Assim, é impossível viver!”.

Horas depois deram comigo estendida no chão rodeada de sangue.
A notícia da minha morte enchera a primeira página de todos os jornais.

Hoje, cá de cima, e junto das minhas queridas e eternas palavras, vou modificando a História de Vida do Homem para que, assim, possa ter um final diferente do que já estava escrito. O final era do mais sombrio que pode haver. Mas, agora, através das minhas palavras, vou distribuindo sorrisos e generosidade para que, aos poucos, por cada boa acção que o Homem vá realizando, se possa escrever uma nova linha do livro da vida.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

27 - Nem sempre

Nem sempre as palavras que se dizem são aquelas que se querem dizer, porque nem sempre se ama quem se quer amar, porque nem sempre se vive como se quer viver.
Como podem as palavras ser mais do que palavras? Como podem ferir tanto alguém?
Será que elas têm esse direito? O direito de poder, de posse, de lei.
As palavras deixam de existir quando o olhar expressa tudo aquilo que elas, enquanto simples e meras palavras, não são capazes de dizer.
Assim, a força do olhar está na representação quer dos nossos sentimentos mais simples quer dos nossos sentimentos mais complexos.
E, embora ame as palavras, se um dia tivesse que escolher entre o conjunto de letrinhas e o olhar, pois muito certamente que preferia o olhar, pela sua genialidade em mostrar o quão nos sentimos felizes, embaraçados, revoltados ou, até mesmo, quando queremos que alguém nos seja indiferente.
Assim, a pureza está naqueles de quem a vê e naqueles de quem a sente.
Porque nem sempre as palavras são sinceras, porque nem sempre se quer magoar quem, com as palavras, acabamos por magoar.

sábado, dezembro 23, 2006

Opiniões e comentários à parte, este post foi feito única e exclusivamente para desejar a todos um Feliz, Feliz Natal!
Sejam, vocês também, felizes o ano inteiro.

Um beijo,
Madalena

*Regresso em 2007 em grande, estejam, por isso, presentes :-) *

segunda-feira, novembro 13, 2006

26 – Uma Vida que se ama e que se quer, para Sempre

Cartas de Amor. Um Amor tão grande que preenche toda a Vida. Porque amar é saber sentir; porque amar é manter uma amizade durante uma vida; porque amar é assim: querer o amor de Alguém.
Cadernos do início da nossa vida escolar. Aprender a escrever. Letras miudinhas, meio tortas, mas feitas com jeitinho. Aprender a ler. Palavras destorcidas, mal ditas, mas com jeitinho. Aprender a aprender. Sorrir tão facilmente e caminhar de mão dada com os inúmeros amigos, feitos em um segundo, que se tem e que, tão lamentavelmente, se perdem com o Tempo.
Fotografias. Olhar para elas e ver-me ali, tão doce, tão criança, tão feliz. Descobrir a minha Vida através delas. Redescobrir hábitos, gestos e palavras, através delas. Sim, as fotografias falam. Eu sei.
Recordo. Recordo todo este Passado diariamente, Ele é o meu Presente e a certeza que, no Futuro, o irei recordar com mais intensidade.
Porque é-me importante tudo isto; porque não me imagino a perder o contacto físico com aqueles papéis já amarelados, com aquele início de Vida onde se quer tanto aprender, com aquelas fotografias que mostram todos os passos da minha existência. Porque me é importante. Sinto que é o Passado a minha Vida e que me fará falta se o perder e que, parte de mim, acabará por se desmoronar.

É o amor.
O amor sempre presente.
Ama-se alguém ou ama-se uma [a] Vida, mas ama-se.

quarta-feira, novembro 08, 2006

25 - O beijo

Guardo o beijo que me deste nesta doce manhã.
Passo o dia a tocar-me na face, para ver se ainda sinto os teus lábios.
Tudo parece muito mais bonito. Esta cidade parece ter ganho uma nova cor. A chuva, cristalina, retira-me o teu beijo, mas deixa o sentir. Assim, continuas comigo.
Caminho até casa. A porta abre-se, como que por magia, e eu deixo-me deslizar naquela cama que é só minha.
O frio aperta, mas eu agarro-me às memórias de um dia que me fez feliz. Aqueço-me, assim, só por pensar em ti.
Agora quero estar contigo. É de noite. Não faz mal. Enrosco-me, fecho os olhos, penso em ti e adormeço.

quarta-feira, outubro 25, 2006

24 – Amor maternal

Adormeces e acordas dentro de mim. Vivemos juntas neste abraço eterno que é só nosso. Deixamos que os nossos olhos sorriam porque é assim que queremos viver; porque é assim que eu te quero ver a crescer, sempre com esse sorriso de criança, com esse sorriso que me alimenta e que me faz ficar assim, a olhar eternamente para ti.

Conheço-te. Sei quando os teus olhos me falam, porque tens a mania de falar assim, sem mexeres os lábios e, de olhar brilhante, vais segredando. Eu oiço-te, mesmo no meio desta Vida que é tão barulhenta, ou será tão silenciosa? Porque não há ninguém que queira ouvir e porque é assim que se vai vivendo, caminhando sempre num espaço oco de sentimentos e de desejos de amar.

Mas eu sei que serás, que já és um ser humano muito bonito e feliz.E, se um dia, tudo isto tiver que terminar, então que termine como tudo começou: com um sorriso. Porque somos humanos e nascemos a chorar e morremos a sorrir.

domingo, outubro 22, 2006

23 - ping-pong

Ping-pong
É o nada que me preenche
É a chuva que me seca
São os teus olhos que me cegam

És amor. És o todo que me faz falta,
Porque me matas de todas as vezes que te sinto aqui,
Presente e vivo,
Dentro de mim

Ping-pong
É assim

sábado, outubro 14, 2006

22 – Palavras para o menino

É segunda-feira e, por isso, Sara decide deixar o carro estacionado à porta de casa e ir de comboio. Hoje tinha uma tese importante para apresentar. Estava segura de si e, por isso, deixou o nervosismo de lado. Entra no comboio, escolhe um lugar junto da janela, senta-se e acomoda-se. Cinco minutos depois, ouve uma voz feminina que a informa que o comboio sofreu uma pequena avaria, mas o tempo para que tudo volte à normalidade é indeterminado.
Começa a olhar sistematicamente para o relógio. Os minutos parecem passar à velocidade da luz e o comboio continua ali, parado. Logo se apercebe que de nada lhe serve estar para ali meio que eléctrica e a sofrer por antecipação. Acalma-se e tenta olhar à sua volta. E ali estava o menino que ela fizera sorrir e que nela provocara um sorriso, também. O doce menino, cujo nome ela não chegara a saber, tinha uns olhos grandes, castanhos-escuros e tristes. O pequeno moreninho, de olhar sempre para baixo parecera ter medo do mundo. Os seus 6 anos, se tanto, deveriam ter sido vividos de maneira errada, daquela maneira que nenhuma criança deveria saber, conhecer e viver.
E, quando ganhou coragem, olhou para ela muito timidamente e quando os olhos deles se fixaram ele baixou de imediato o rosto. Ao seu lado, estava um homem sujo e de aspecto cruel, será, talvez o pai daquela criança sem vida.
Toda a viagem foi feita assim: olhares cúmplices que trocavam palavras silenciosas, que faziam o menino sorrir. No final, quando a viagem terminara para Sara, sorriram os dois, baixinho, e agradeceram-se mutuamente, em segredo.

quarta-feira, outubro 04, 2006

21 - Um novo corpo, uma nova alma

Dizes que estou mais bonita. Achas que estou apaixonada e que é por isso que ultimamente os meus olhos têm brilhado tanto, mas tanto que chegam a iluminar o caminho mais escuro e sombrio. Eu não me atrevo a comentar. Sorrio, apenas. Um sorriso que me torna cúmplice dessa tua afirmação. Não tenho medo em confirmar-to, mas é-me tudo tão estranho. É claro que já estive apaixonada e é por isso mesmo que não entendo estes novos sentimentos que originam novas reacções.
Eu fico perplexa a olhar para ele e, quando isso acontece, o Mundo até pode acabar que eu não irei notar.
De todas as vezes que me apaixonei soube controlar perfeitamente os meus desejos e os meus olhares, embora quisesse ficar perto dele. Não sei porquê, mas desta vez é diferente. Para além de pensar nele constantemente, os tais olhares que, até à data, eram controlados ficam agora sem rumo. Não os consigo dominar, aliás, são os meus olhos que me dominam e que fazem com que eu sinta que toda a gente se está aperceber do meu sentimento pelo Artur, mas que, mesmo assim, eu continuo a olhar... A olhar...

Ele tem uns olhos lindos. Lindos e poderosos! E, talvez seja essa a razão, que leva o meu olhar a desviar-se do dele. Não sei se o meu corpo irá aguentar, no dia em que os meus olhos se fixarem nos dele.

Por agora, contento-me apenas por deslumbrar aquela imagem que me tem mantido viva e, de novo, apaixonada.

quarta-feira, setembro 13, 2006

20 – Momentos

O tempo pára. O calor deixa de aquecer e o vento deixa de me bater na cara.
Vejo-te estagnado. Paraste com o tempo. Passo por ti, indiferente, e deixo que os meus olhos percorram todos aqueles corpos que pararam para me verem passar.
Ninguém sabe que eu estou ali, mas eu finjo que sou a estrela, a única que caminha; a única que é capaz de sentir todo aquele silêncio, a única que, quando todos acordarem, o saberá respeitar. Porque quando todos voltarem a caminhar apressadamente, cada um para seu lado; porque quando as vozes já se confundirem umas com as outras e quando os olhos parecerem cegos por nada avistar... Só eu vou saber como o silêncio me devolve a alma; como é tão bonito o som do mar e como é bom ver o olhar de cada ser sem se mexer e sem ter pressa de chegar ao destino que é quase diário.

Gostava que o tempo parasse mais vezes. Que, de cada vez que parasse, houvesse alguém que, como eu, deslumbrasse todo aquele momento. Assim, aos poucos, todos iriam saber como é bom sentir aquela paz e como a podemos trazer ao mundo real, onde o tempo trabalha constantemente e, por isso, jamais poderá parar.

segunda-feira, setembro 11, 2006

19 – Se fosses tu

É à noite, quando o silêncio me invade, que me aqueço ao lembrar-me do teu sorriso e te vejo a correr por entre os campos onde o sol, ao longe, nos canta baixinho.
Recordo-me todos os dias dos momentos que passei contigo e onde fui tão feliz. Porque não os quero esquecer, lembro-me e relembro-me deles a cada instante em que o tempo parece parar.
Nós. Era a palavra que nos encantava; que nos fazia crer que iríamos morrer assim, bem apertadinhos, a rebolar naquele chão macio, que nos fazia cócegas e onde depois, aos nos levantarmos o problema era sempre o mesmo: as calças-de-ganga tornavam-se verdes. Agora sorrimos. Agora, distantes, já sem ter a certeza de que tu ainda te lembras de mim, começo a questionar-me o que seria de mim, se o homem que me acompanha, que se encontra ao meu lado, fosses tu...

terça-feira, setembro 05, 2006

18 - Até à próxima noite

Afagas o meu choro com os teus beijos. Beijos que me calam e que deixam o meu corpo sem formas, para que se possa moldar de modo a encaixar no teu. Deixo que me domines. De todas as noites que fazemos amor caio morta nos teus braços, deixando que me ames até à exaustão. Horas de prazer. Momentos que me ficam gravados para os poder recordar assim que a porta se fecha e tu deixas de aqui estar. Beijas-me e depois dizes adeus. Agora, caminhas para a tua outra casa, para a tua outra mulher e para os teus filhos. Caminhas para a tua família e eu fico aqui à espera da próxima noite que virás até mim, amar-me como só tu sabes. Espero-te, sempre. Até à próxima noite.

sexta-feira, setembro 01, 2006

17 - Precisas do Mundo

Às vezes acreditas que só precisas de ti para seres feliz. Por muito que o silêncio seja importante - por nos dar as respostas às perguntas que nos fazem sofrer; por nos fazer descobrir mais um pouco de nós próprios; por nos aquecer nas noites mais frias de Inverno... Por ser assim tão mágico -, não nos podemos deixar envolver completamente nessa nódoa sem som, nesse pensamento nu, onde nada nem ninguém o invade, porque nada existe a não seres só tu. Precisas de conhecer o sabor de um abraço forte, de apoio, de encorajamento, de felicidade ou simplesmente de ternura; precisas de sentir o tocar de duas bocas que se beijam apaixonadamente; precisas de te ouvir, sim, mas precisas tanto dos outros e não o tentes negar, porque ninguém consegue viver uma vida feliz completamente só. Por isso, sorri de cada vez que te sorrirem...







*Não consegui postar mais cedo porque fiquei estes dias sem Internet.

quarta-feira, agosto 23, 2006

16 - Amar-te em palavras

Gostas de me ler. Saboreias cada palavra que é escrita só para ti. Sorris de cada vez que me vês a elogiar-te. E eu hei-de morrer a desenhar cada letra do teu nome, porque tu fazes-me bem e eu gosto de viver assim; gosto de te ver quando beijas o som de cada palavra, quando ficas ternurento ao escutar o ritmo das frases que vão chegando até ti.

É tão fácil apaixonar-me por ti. Denoto uma doçura ao penetrar na tua caligrafia, que é mágica, profunda e que me sabe roubar tão bem o coração. O teu olhar permanece sempre no meu imaginário e, assim, é fácil antever cada reacção tua, cada gesto e, até mesmo, cada pensamento teu ao ler as cartas que são exclusivamente tuas.

Os olhares não se cruzam; as mãos não se tocam; os corpos não se unem. É assim que eu te amo.

Amo-te em palavras.

quarta-feira, agosto 16, 2006

15 - Por detrás de um olhar

- Bom dia, Joana. Passa-me, por favor, a toalha. – Disse carinhosamente Miguel com a sua habitual voz de menino que ainda precisa da mãe e que, ao acordar, parece tão inocente como um bebé acabado de nascer.
E, passando genuinamente a toalha, Joana sem nada lhe dizer, esboça apenas um sorriso.

A vida de recém-casados correra lindamente. A cumplicidade notava-se no olhar. Os lábios, mesmo sem se mexerem, falavam, embora eles fossem os únicos a ouvir aquele silêncio. O unir das mãos era feito com uma suavidade que, quando se tocavam, permaneciam unidas durante muito tempo, pelo menos o tempo necessário para se voltarem apaixonar. E, assim, os dias iam passando e a paixão continuara viva.

Joana era daquelas mulheres que acreditava que o casamento era, de facto, para toda a vida. Mas, um dia, percebeu que nada é para sempre. E, por isso, por muito que ela quisesse, o amor não duraria eternamente. Passou acreditar na efemeridade da vida no dia em que descobriu que o marido, que sempre lhe parecera tão fiel e verdadeiramente apaixonado, a traíra. O choque foi brutal. Joana sentiu o mundo a cair sobre si e para tornar a situação verdadeiramente desoladora descobrira, também naquela altura, que não tinha um único amigo, nem um único familiar com quem pudesse chorar destemidamente, sem medos e sem segredos. Lembrou-se que todos a tinham abandonado no dia em que decidiu casar com Miguel. Agora, ao se olhar, viria apenas um buraco sem fundo e, logo se apercebeu, que esse mesmo buraco correspondia ao vazio que sentia; à solidão que a envolvia e que a matava por não saber lidar com ela. O ódio por si mesma assim como o arrependimento logo surgiu. Lamentou o facto de ter lutado por um amor que não valera a pena. Não se arrependera pela relação não ter resultado, mas sim por ter sido traída mesmo antes de casar e essa traição ter continuado. E, sendo assim, não era o amor que tinha acabado, mas era sim o amor que nunca tinha nascido.

O Miguel traíra a Joana com o Orlando. O Orlando!, o grande amor do Miguel que, para o esconder, a família o obrigara a casar com a rapariguinha bonitinha mas tão ingenuazinha: Joana!

Nem os amigos, nem os familiares de Joana sabiam desse amor secreto do Miguel. Mas, a cumplicidade, o amor, a paixão verdadeiramente ardente que Joana sentia, não passara de um ilusão que só ela julgara existir. Todos que a rodeavam sempre se aperceberam da ausência de química entre o casal; do carinho forçado por parte do Miguel... Mas, para Joana – ou para os seus olhos - , tudo correra como uma verdadeira história de amor.

Traições! Enganos! Dor e mais dor! Um sofrimento profundo que, um dia, já mais não fará sentido. Nada é eterno: nem o amor, nem a dor...